terça-feira, 4 de março de 2014

Quarta-Feira de Cinzas

A Quarta-feira de Cinzas representa o primeiro dia da Quaresma no calendário gregoriano, podendo também ser designada por Dia das Cinzas, pois, é uma data de muito significado para a comunidade cristã. A data é um símbolo do dever da conversão e da mudança de vida, para recordar a passageira fragilidade da vida humana, sujeita à morte. Coincide com o dia seguinte à terça-feira de carnaval e é o primeiro dos 40 dias (Quaresma).

O tempo da Quaresma é tempo privilegiado na vida da Igreja. É o chamado tempo forte, de conversão e de mudança de vida. Sua palavra-chave é: "metanóia", ou seja, conversão. Nesse tempo se registram os grandes exercícios quaresmais: a prática da caridade e as obras de misericórdia. O jejum, a esmola e a oração são exercícios bíblicos até hoje recomendáveis, na imitação da espiritualidade judaica. No Brasil, realiza-se a Campanha da Fraternidade, com sua proposta concreta de ajuda aos irmãos, focalizando sempre um tema da vida social. Por isso, a Igreja no Brasil promove a campanha da Fraternidade. A Campanha da Fraternidade é um grande instrumento de evangelização que visa a promoção humana e o bem comum. Esse ano o tema: Fraternidade e Tráfico Humano e o lema: É para liberdade que Cristo nos libertou (Gl 5, 1).

A origem deste nome é puramente religiosa. Neste dia, é celebrada a tradicional Missa das Cinzas. As Cinzas utilizadas neste ritual provêm da queima dos ramos abençoados no Domingo de Ramos do ano anterior. A estas Cinzas, mistura-se água benta. De acordo com a tradição, o presidente desta cerimônia utiliza essas cinzas úmidas para sinalizar uma cruz na fronte de cada fiel, proferindo a frase: “Lembra-te que és pó e que ao pó voltarás” ou a frase “Convertei-vos e crede no Evangelho”.

Na Quarta-feira de Cinzas (e na sexta-feira Santa) à Igreja Católica preceitua os fiéis a fazerem jejum e a não comerem carne. Esta tradição já existe há muitos anos e tem como propósito fazer com que os fiéis tomem parte do Sacrifício de Jesus.

Além destas manifestações de penitência (a abstinência de carne a partir dos 14 anos e o jejum entre os 18 e os 59 completos), que nos aproximam do Senhor e dão à alma uma alegria especial, a Igreja pede-nos também que pratiquemos a esmola que, oferecida com um coração misericordioso, deseja levar um pouco de consolo aos que passam por privações ou contribuir conforme as possibilidades de cada um para uma obra apostólica em bem das almas. O tema da pobreza é a mensagem do Papa Francisco para esta quaresma: “Fez-se pobre para nos enriquecer”.

O Senhor quer que nos desapeguemos das coisas da terra para que possamos dirigir-nos a Ele, e que nos afastemos do pecado, que envelhece e mata, e retornemos à fonte da Vida e da alegria: O próprio Jesus Cristo é a graça mais sublime de toda a Quaresma. É Ele quem se apresenta diante de nós na simplicidade admirável do Evangelho.

Dirigir o coração a Deus, converter-se, significa estarmos dispostos a empregar todos os meios para viver como Ele espera que vivamos, a não tentar servir a dois senhores, a afastar da vida qualquer de pecado deliberado. Jesus procura em nós um coração contrito, conhecedor das suas faltas e pecados e disposto a eliminá-los. O Senhor deseja uma dor sincera dos pecados, que se manifestará antes de tudo na Confissão sacramental: converter-se quer dizer para nós procurar novamente o perdão e a força de Deus no sacramento da reconciliação e assim recomeçar sempre, avançar diariamente.

Em Cristo encontramos sempre o remédio para uma possível tibieza e as forças para vencer defeitos que de outro modo seriam insuperáveis. Quando alguém diz: sou irremediavelmente preguiçoso, não sou tenaz, não consigo terminar as coisas que começo, deveria pensar (hoje): não estou tão perto de Cristo como deveria.

Portanto, para os que estão dominados pelo pessimismo, pensando que os seus defeitos não têm remédio, saibam que chegou o tempo favorável. Começa a Quaresma; vamos encará-la como um tempo de mudança e de esperança. Por isso, desejo a todos uma abençoada e santa Quaresma!!!

Fonte:

A origem do Carnaval

Vários autores explicam o nome carnaval a partir do latim “ carne vale”, isto é, “adeus carne” ou a “despedida da carne”. Isso significa que, no carnaval, o consumo de carne era considerado lícito, pela última vez, antes dos dias de jejum quaresmal. Outros estudiosos recorrem à expressão “carnem levare”, suspender ou retirar a carne.

O Papa São Gregório Magno (590-604), teria dado ao último domingo, antes da Quaresma (antigamente domingo da quinquagésima), o título de “domenica ad carnes levandas”; o que teria gerado “carneval” ou carnaval. Um grupo de etimologistas apela para as origens pagãs do carnaval: entre os gregos e os romanos, costumava-se fazer um cortejo com uma nave dedicado ao deus Dionísio, ou baco, festa que se chamava em latim de “currus navalis” (nave carruagem), de onde teria vindo a forma “carnavale”.

As mais antigas notícias do que hoje chamamos “Carnaval” datam, como se crê, do século VI a.C.; na Grécia: há pinturas gregas em vasos com figuras ano mascaradas desfilando em procissão ao som de músicas em honra do deus Dionísio, com fantasias e alegorias; são certamente anteriores à era cristã. Outras festas semelhantes aconteciam na entrada do novo civil (mês de janeiro) ou pela aproximação da primavera (hemisfério norte), na despedida do inverno.

Eram festas religiosas dentro da concepção pagã e da mitologia com a intenção de, com esses ritos, expiar as faltas cometidas no inverno ou no ano anterior e pedir aos deuses a fecundidade da terra e a prosperidade para a primavera e o novo ano. Tudo isso parece ter gerado abusos estimulados com o uso de máscaras, fantasias, cortejos, peças de teatro, etc. As religiões ditas de “mistérios” provenientes do Oriente, muito difundidas no Império Romano, concorreram para o fomento das festividades carnavalescas. Estas tomaram o nome de “pompas bacanais” ou “saturnais” ou “lupercais”.

Quando o Cristianismo surgiu já deve ter encontrado esses costumes pagãos. Vivenciando o Evangelho os cristãos aos poucos transformaram o significado de muitas festas pagãs ou míticas procurando purifica-las. Aos poucos essas festas foram sendo substituídas por solenidades do Cristianismo (Natal, Epifania do Senhor ou a Purificação de Maria, dita “festa da Candelária”, em vez dos mitos pagãos celebrados a 25 de dezembro, 6 de janeiro ou 2 de fevereiro). Por fim, a tradição da Igreja parece ter conseguido restringir a celebração oficial do Carnaval aos três dias que precedem a quarta-feira de cinzas. Hoje, infelizmente nem sempre acontece isso em nossa sociedade.

Em Portugal o carnaval era festa da alegria onde as pessoas jogavam uma nas outras, água, ovos e farinha. Acontecia num período anterior a quaresma e, portanto, tinha um significado ligado à liberdade. Este sentido permanece até os dias de hoje no carnaval.

No Brasil, no final do século XIX, começam a aparecer os primeiros blocos carnavalescos, cordões e os famosos “corsos”. Estes últimos tornaram-se mais populares no começo dos séculos XX. As pessoas se fantasiavam, decoravam seus carros e, em grupos, desfilavam pelas ruas das cidades. Estaria aí a origem dos carros alegóricos, típicos das escolas de samba atuais.

No século XX, o carnaval foi crescendo e tornando-se cada vez mais uma festa popular. Esse crescimento ocorreu com a ajuda das marchinhas carnavalescas. A primeira escola de samba, segundo algumas tradições, surgiu no Rio de Janeiro e chamava-se “Deixa Falar”. Foi criada pelo sambista carioca chamado Ismael Silva. Anos mais tarde a “deixa Falar”, segundo consta, transformou-se na escola de samba “Estácio de Sá”. A partir daí o carnaval de rua começa a ganhar um novo formato. Começam a surgir novas escolas de samba, começam os primeiros campeonatos para verificar qual escola de samba era mais bonita e animada.

Portanto, o carnaval é uma festividade complexa e com muitas nuances e prismas. Porém, infelizmente, como acontece com todas as coisas também temos exageros e violências em vários campos que lamentamos e exortamos para que a vida humana seja sempre respeitada. Seria muito importante que as pessoas pudessem se reunir para divertir de maneira sadia e com um espírito de amor ao próximo. Neste período de Carnaval a Igreja incentiva os retiros espirituais. Aqui em nossa arquidiocese são incontáveis. Pelo menos uns 30 reúnem um número significativo de pessoas que passam esses dias na alegria cristã e na reflexão preparando-se para uma santa quaresma. Mesmo nesses ambientes de retiro existe um momento de folguedo cristão mais animado demonstrando que não somos contra a “verdadeira alegria” brotada do Evangelho e que precisa contagiar a todos com a “boa notícia” da salvação.

Nessa “despedida da carne” é importante que nos preparemos para um tempo de verdadeira conversão. Nessas idas e vindas dos costumes como vimos acima não podemos perder de vista a necessidade de sermos pessoas novas que vivam com responsabilidade este tempo de tantas mudanças e transformações.

Nesse mundo violento e complexo, aonde os valores humanos e cristãos vão sendo esquecidos, é sempre uma oportunidade de reflexão séria sobre os direcionamentos que estamos ando as nossas vidas e a nossa sociedade. Somente deixando-nos conduzir por corações novos que homens novos poderão construir uma sociedade justa e fraterna.


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segunda-feira, 3 de março de 2014

EXORTAÇÃO APOSTÓLICA EVANGELII GAUDIUM - O lugar privilegiado dos pobres no povo de Deus

197. No coração de Deus, ocupam lugar preferencial os pobres, tanto que até Ele mesmo «Se fez pobre» (2 Cor 8, 9). Todo o caminho da nossa redenção está assinalado pelos pobres. Esta salvação veio a nós, através do «sim» duma jovem humilde, duma pequena povoação perdida na periferia dum grande império. O Salvador nasceu num presépio, entre animais, como sucedia com os filhos dos mais pobres; foi apresentado no Templo, juntamente com dois pombinhos, a oferta de quem não podia permitir-se pagar um cordeiro (cf. Lc 2, 24; Lv 5, 7); cresceu num lar de simples trabalhadores, e trabalhou com suas mãos para ganhar o pão. Quando começou a anunciar o Reino, seguiam-No multidões de deserdados, pondo assim em evidência o que Ele mesmo dissera: «O Espírito do Senhor está sobre Mim, porque Me ungiu para anunciar a Boa No-va aos pobres» (Lc 4, 18). A quantos sentiam o peso do sofrimento, acabrunhados pela pobreza, assegurou que Deus os tinha no âmago do seu coração: «Felizes vós, os pobres, porque vosso é o Reino de Deus» (Lc 6, 20); e com eles Se identificou: «Tive fome e destes-Me de comer», ensinando que a misericórdia para com eles é a chave do Céu (cf. Mt 25, 34-40).

198. Para a Igreja, a opção pelos pobres é mais uma categoria teológica que cultural, sociológica, política ou filosófica. Deus «manifesta a sua misericórdia antes de mais» a eles.[163] Esta preferência divina tem consequências na vida de fé de todos os cristãos, chamados a possuírem «os mesmos sentimentos que estão em Cristo Jesus» (Fl 2, 5). Inspirada por tal preferência, a Igreja fez uma opção pelos pobres, entendida como uma «forma especial de primado na prática da caridade cristã, testemunhada por toda a Tradição da Igreja».[164] Como ensinava Bento XVI, esta opção «está implícita na fé cristológica naquele Deus que Se fez pobre por nós, para enriquecer-nos com sua pobreza».[165] Por isso, desejo uma Igreja pobre para os pobres. Estes têm muito para nos ensinar. Além de participar do sensus fidei, nas suas próprias dores conhecem Cristo sofredor. É necessário que todos nos deixemos evangelizar por eles. A nova evangelização é um convite a reconhecer a força salvífica das suas vidas, e a colocá-los no centro do caminho da Igreja. Somos chamados a descobrir Cristo neles: não só a emprestar-lhes a nossa voz nas suas causas, mas também a ser seus amigos, a escutá-los, a compreendê-los e a acolher a misteriosa sabedoria que Deus nos quer comunicar através deles.

199. O nosso compromisso não consiste exclusivamente em acções ou em programas de promoção e assistência; aquilo que o Espírito põe em movimento não é um excesso de activismo, mas primariamente uma atenção prestada ao outro «considerando-o como um só consigo mesmo».[166] Esta atenção amiga é o início duma verdadeira preocupação pela sua pessoa e, a partir dela, desejo procurar efectivamente o seu bem. Isto implica apreciar o pobre na sua bondade própria, com o seu modo de ser, com a sua cultura, com a sua forma de viver a fé. O amor autêntico é sempre contemplativo, permitindo-nos servir o outro não por necessidade ou vaida-de, mas porque ele é belo, independentemente da sua aparência: «Do amor, pelo qual uma pessoa é agradável a outra, depende que lhe dê algo de graça».[167] Quando amado, o pobre «é estimado como de alto valor»,[168] e isto diferencia a autêntica opção pelos pobres de qualquer ideologia, de qualquer tentativa de utilizar os pobres ao serviço de interesses pessoais ou políticos. Unicamente a partir desta proximidade real e cordial é que podemos acompanhá-los adequadamente no seu caminho de libertação. Só isto tornará possível que «os pobres se sintam, em cada comunidade cristã, como “em casa”. Não seria, este estilo, a maior e mais eficaz apresentação da boa nova do Reino?»[169] Sem a opção preferencial pelos pobres, «o anúncio do Evangelho – e este anúncio é a primeira caridade – corre o risco de não ser compreendido ou de afogar-se naquele mar de palavras que a actual sociedade da comunicação diariamente nos apresenta».[170]
 
200. Dado que esta Exortação se dirige aos membros da Igreja Católica, desejo afirmar, com mágoa, que a pior discriminação que sofrem os pobres é a falta de cuidado espiritual. A imensa maioria dos pobres possui uma especial abertura à fé; tem necessidade de Deus e não podemos deixar de lhe oferecer a sua amizade, a sua bênção, a sua Palavra, a celebração dos Sacramentos e a proposta dum caminho de crescimento e amadurecimento na fé. A opção preferencial pelos pobres deve traduzir-se, principalmente, numa solicitude religiosa privilegiada e prioritária.

201. Ninguém deveria dizer que se mantém longe dos pobres, porque as suas opções de vida implicam prestar mais atenção a outras incumbências. Esta é uma desculpa frequente nos ambientes académicos, empresariais ou profissionais, e até mesmo eclesiais. Embora se possa dizer, em geral, que a vocação e a missão próprias dos fiéis leigos é a transformação das diversas realidades terrenas para que toda a actividade humana seja transformada pelo Evangelho,[171] ninguém pode sentir-se exonerado da preocupação pelos pobres e pela justiça social: «A conversão espiritual, a intensidade do amor a Deus e ao próximo, o zelo pela justiça e pela paz, o sentido evangélico dos pobres e da pobreza são exigidos a todos».[172] Temo que também estas palavras sejam objecto apenas de alguns comentários, sem verdadeira incidência prática. Apesar disso, tenho confiança na abertura e nas boas disposições dos cristãos e peço-vos que procureis, comunitariamente, novos caminhos para acolher esta renovada proposta.


Fonte:

A Igreja é o Povo de Deus - o Papa Francisco na Audiência Geral - 12 de Junho de 2013

Hoje gostaria de meditar brevemente sobre outra expressão com a qual o Concílio Vaticano II definiu a Igreja: «Povo de Deus» (cf. Constituição dogmática Lumen gentium, 9; Catecismo da Igreja Católica, n. 782). E faço-o mediante algumas perguntas, acerca das quais cada um poderá reflectir.

O que quer dizer ser «Povo de Deus»? Antes de tudo, significa que Deus não pertence de modo próprio a qualquer povo, pois é Ele que nos chama, que nos convoca, que nos convida a fazer parte do seu povo, e este convite é dirigido a todos, sem distinção, porque a misericórdia de Deus «deseja que todos os homens se salvem» (1 Tm 2, 4). Jesus não diz aos Apóstolos e a nós que formemos um grupo exclusivo, um grupo de elite. Jesus diz: ide e ensinai todas as nações (cf. Mt 28, 19). São Paulo afirma que no povo de Deus, na Igreja, «Já não há judeu nem grego... pois todos vós sois um só em Cristo Jesus» (Gl 3, 28). Gostaria de dizer inclusive àqueles que se sentem distantes de Deus e da Igreja, a quem é medroso ou indiferente, a quantos pensam que já não podem mudar: o Senhor chama-te, também a ti, a fazer parte do seu povo, e fá-lo com grande respeito e amor! Ele convida-nos a fazer parte deste povo, do povo de Deus.

Como nos tornamos membros deste povo? Não é através do nascimento físico, mas mediante um novo nascimento. No Evangelho, Jesus diz a Nicodemos que é preciso nascer do alto, da água e do Espírito para entrar no Reino de Deus (cf. Jo 3, 3-5). É através do Baptismo que nós somos introduzidos neste povo, mediante a fé em Cristo, dom de Deus que deve ser alimentado e desenvolver-se em toda a nossa vida. Perguntemo-nos: como faço crescer a fé que recebi no meu Baptismo? Como faço crescer esta fé que recebi e que o povo de Deus possui?
Outra pergunta. Qual é a lei do Povo de Deus? É a lei do amor, amor a Deus e amor ao próximo, segundo o mandamento novo que o Senhor nos deixou (cf. Jo 13, 34). Mas trata-se de um amor que não é sentimentalismo estéril, nem algo de vago, mas sim o reconhecimento de Deus como único Senhor da vida e, ao mesmo tempo, o acolhimento do outro como verdadeiro irmão, superando divisões, rivalidades, incompreensões e egoísmos; são dois elementos que caminham juntos. Quanto caminho ainda temos que percorrer, para viver concretamente esta nova lei, a do Espírito Santo que age em nós, a da caridade, do amor! Lemos nos jornais ou vemos na televisão que há muitas guerras entre cristãos; como pode acontecer isto? Quantas guerras no seio do povo de Deus! Nos bairros, nos lugares de trabalho, quantas guerras por inveja, ciúmes! Até na mesma família, quantas guerras internas! Devemos pedir ao Senhor que nos faça compreender bem esta lei do amor. Como é bom amar-nos uns aos outros, como verdadeiros irmãos. Como é bom! Hoje façamos algo. Talvez todos nós tenhamos simpatias e antipatias; talvez muitos de nós tenhamos um pouco de raiva a alguém; então, digamos ao Senhor: Senhor, estou enraivecido com ele ou com ela; rezo a Ti por ele e por ela. Orar por aqueles com os quais estamos irados é um bom passo em frente nesta lei do amor. Façamo-lo? Façamo-lo, hoje mesmo!

Que missão tem este povo? A missão de levar ao mundo a esperança e a salvação de Deus: ser sinal do amor de Deus que chama todos à amizade com Ele; ser fermento que faz levedar toda a massa, sal que dá sabor e que preserva da corrupção, ser luz que ilumina. Ao nosso redor, é suficiente ler um jornal — como eu disse — para ver que a presença do mal existe, que o Diabo age. Mas gostaria de dizer em voz alta: Deus é mais forte! Vós acreditais nisto, que Deus é mais forte? Então digamo-lo juntos, digamo-lo todos juntos: Deus é mais forte! E sabeis por que motivo é mais forte? Porque Ele é o Senhor, o único Senhor! E gostaria de acrescentar também que a realidade às vezes obscura, marcada pelo mal, pode mudar, se formos os primeiros a transmitir a luz do Evangelho, principalmente através da nossa própria vida. Se num estádio, pensemos aqui em Roma no Olímpico, o naquele de São Lourenço em Buenos Aires, numa noite escura, uma pessoa acende uma luz, mal se entrevê; mas se os mais de setenta mil espectadores acendem a própria luz, o estádio ilumina-se. Façamos com que a nossa vida seja uma luz de Cristo; juntos, levaremos a luz do Evangelho a toda a realidade.

Qual é a finalidade deste povo? A finalidade é o Reino de Deus, encetado na terra pelo próprio Deus e que deve ser ampliado até ao seu cumprimento, quando voltar Cristo, nossa vida (cf.  Lumen gentium, 9). Então, a finalidade é a comunhão plena com o Senhor, a familiaridade com o Senhor, entrar na sua própria vida divina, onde viveremos a alegria do seu amor incomensurável, uma alegria plena.

Estimados irmãos e irmãs, ser Igreja, ser Povo de Deus, segundo o grande desígnio de amor do Pai, quer dizer ser o fermento de Deus nesta nossa humanidade, significa anunciar e levar a salvação de Deus a este nosso mundo, que muitas vezes se sente perdido, necessitado de respostas que animem, que infundam esperança e que dêem um vigor renovado ao caminho. A Igreja seja lugar da misericórdia e da esperança de Deus, onde cada qual possa sentir-se acolhido, amado, perdoado e encorajado a viver em conformidade com a vida boa do Evangelho. E para fazer com que o outro se sinta acolhido, amado, perdoado e encorajado, a Igreja deve manter as suas portas abertas, a fim de que todos possam entrar. E nós temos que sair através de tais portas e anunciar o Evangelho.

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Por que Jesus é chamado Leão da tribo de Judá?

Para respondermos esta questão que indaga sobre este titulo dado a Jesus teremos que beber das fontes do Judaísmo. Como se originou este termo, para quem era direcionado, qual o sentido histórico que possuía para o povo judaico, declarar a tribo de Judá como a guardiã do povo de Israel. O chamado Leão da tribo de Judá.

Comecemos com um versículo do livro do apocalipse, que nos coloca este título a Jesus:
“Todavia, um dos anciãos me disse: Não chores; eis que o Leão da Tribo de Judá, a Raiz de Davi, venceu para abrir o livro e os seus sete selos.” Apocalipse 5,5

E quem é o Leão da tribo de Judá? Seria Jesus!
O leão é o símbolo da Tribo de Judá, um dos filhos de Israel, e receberam de seu pai uma bênção especial. Gênesis 49,8-12 nos fala: Ele diz que os irmãos de Judá o louvarão e que a sua mão estará sobre os seus inimigos, Judá é considerado um leãozinho, isto é, ele será vitorioso sobre os seus inimigos e que o cetro, a autoridade, não se afastará dele e que a ele obedecerão os povos.

Características de um leão:
 O leão é forte, ágil, corajoso e não se intimida em enfrentar um adversário. Seu potente rugido assusta os animais que estão por perto. Seu rugido atemoriza seus inimigos.
O leão é dono absoluto de seu território, zela por ele e não se deixa apanhar desprevenido, mas está sempre vigilante. Seu rugido diz aos outros animais que aquele território tem dono, tem liderança.

Jesus é o Leão da Tribo de Judá
A primeira comunidade cristã passou a considerar a Jesus como a imagem do Leão da tribo de Judá que venceu o inimigo, foi morto na cruz, mas ressuscitou, derrotando a morte. O evangelho de Marcos é caracterizado pela figura do Leão, que mostra Jesus, o messias esperado, que vem salvar a humanidade.

Jesus, o Leão de Judá, rugiu poderosamente diante do poder do mal, declarando a sua derrota. Na Sua ressurreição, Jesus mostrou ao inimigo que Ele é a autoridade, dele é o Governo na terra e que o poder do mal já está derrotado, ele não tem lugar no território de Deus.
O evangelista Marcos contrapõe o poder do mal simbolizado pelo Império Romano e o poder de Jesus, Leão da tribo Judá, ele assegurará a vitória a comunidade cristã perseguida em Roma.


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domingo, 2 de março de 2014

Francisco à Pontifícia Comissão para a América Latina: dar novamente esperança aos jovens desencantados


Educar não é somente transmitir conhecimento. A transmissão da fé, feita unicamente através do ensinamento de conteúdos, será superficial ou ideológica. Foi o que disse o Papa Francisco dirigindo nesta sexta-feira um longo e articulado discurso espontâneo – ou seja, sem texto – aos membros da Pontifícia Comissão para a América Latina. A transmissão da fé – disse o Santo Padre – não terá raízes se não for acompanhada de comportamentos e de valores.

Para poder transmitir a fé, além da divulgação de conteúdos, é necessário criar o hábito de uma conduta, favorecer a recepção de valores que a preparem e a façam crescer. A transmissão da fé – disse o Papa – se baseia em três pilares: utopia, memória e discernimento.

O primeiro, importante para as crianças e, sobretudo, para os jovens, "é a boa gestão da utopia". Na América Latina – recordou o Pontífice – "uma gestão não totalmente equilibrada da utopia", como no caso da Argentina, levou jovens da ação Católica a se unirem, nos anos setenta, à guerrilha. Mas saber fazer a utopia de um jovem "é uma riqueza", observou. "Um jovem sem utopia é um velho precoce."

Depois, os outros dois pilares: num jovem – acrescentou Francisco – uma utopia "cresce bem se acompanhada pela memória e discernimento. A utopia olha para o futuro, a memória olha para o passado, e o presente se discerne".

"O jovem deve receber a memória e plantar as raízes da sua utopia nesta memória; discernir no presente a sua utopia, o sinal dos tempos. Sim, a utopia segue adiante, mas é muito radicada na memória e na história que recebeu. Discernir no presente – precisamos de mestres de discernimento para os jovens! – e já projetado para o futuro."

A chave para enfrentar "a emergência educacional" – prosseguiu – é o encontro entre gerações, o encontro entre jovens e anciãos. De fato, este encontro permite conhecer o passado e saber ler o presente. A fé de um jovem – ressaltou em seguida o Pontífice – amadurece se não faltam a memória do passado, o discernimento do presente, e a utopia do futuro.

Mas o verdadeiro problema na sociedade de hoje é "a cultura do descarte": "hoje, para a economia que se radicou no mundo, no centro está o deus dinheiro e não a pessoa humana", afirmou o Santo Padre.

E, portanto, "tudo aquilo que não entra nesta ordem, se descarta. Descartam-se as crianças que sofrem, que incomodam e que não convém que cheguem", "descartam-se os anciãos" e "em alguns países da América Latina há a eutanásia escondida": por vezes são considerados "material de descarto".

Além disso, existem os jovens. Hoje em dia – afirmou – "incomoda a este sistema mundial a quantidade de jovens aos quais é necessário dar trabalho" e, portanto, há "esse percentual tão alto de desemprego juvenil. Estamos tendo uma geração de jovens que não têm a experiência da dignidade!"

Assim, "hoje também os jovens fazem parte deste material de descarto". E o jovem que se encontra sem trabalho "anestesia a utopia". A droga, que está destruindo esta geração de jovens", e "não é somente um problema de vício", e "a proliferação de dependências", quais a ludopatia, são alguns dos obstáculos ao longo do caminho das novas gerações.

"A utopia de um jovem entusiasta – disse o Papa – hoje se transformando em desencanto." É preciso dar fé e esperança aos jovens desencantados – afirmou o Pontífice dirigindo-se aos membros da Pontifícia Comissão para a América Latina.

Ademais, no discurso entregue, mas não lido, o Papa ressaltou que a "Igreja quer imitar Jesus no aproximar-se dos jovens". Deseja repetir que vale a pena seguir o exemplo que nos foi dado. Um exemplo de dedicação, de serviço, de amor desinteressado e de luta pela justiça e a verdade. É belo viver como Jesus, expulsando o egoísmo e deixando-se atrair pela beleza e pela bondade.

"Quem conhece Jesus profundamente – lê-se no texto – não fica na poltrona. Une-se a seu estilo de vida e chega a ser um discípulo missionário de seu Evangelho, dando alegre testemunho de sua fé, não poupando sacrifícios."

Os jovens ouçam a Palavra de Jesus, ouçam que Cristo não é um personagem de uma novela, mas uma pessoa viva. Os jovens esperam em nós. Não os decepcionemos! "Que as comunidades cristãs da América Latina e do Caribe – exortou por fim o Pontífice – saibam ser próximas, mestras e mães de todos e de cada um de seus jovens." (RL)


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sábado, 1 de março de 2014

Müller e a Teologia da Libertação “normalizada”

Pobre e para os pobres”. As palavras do Papa são também o título do mais recente livro de Gerhard Ludwig Müller, prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé. Um texto que parece ser o passo definitivo para uma Teologia da Libertação “normalizada”. O volume, que conta com o prólogo de Francisco, foi apresentado em um auditório do Vaticano, a alguns passos da Praça de São Pedro, e com um relator surpresa: Gustavo Gutiérrez.
Müller é o principal artífice dessa “normalização” de uma corrente de pensamento que ainda provoca ardentes debates na América Latina. Ele é, há décadas, amigo pessoal de Gutiérrez, “pai” dessa teologia. Após a apresentação do livro, o recente cardeal alemão explicou aos jornalistas a razão pela qual a apoia sem hesitar.

A entrevista é publicada por Vatican Insider, 27-02-2014 . A tradução é do Cepat.

Eis a entrevista.
Em seu momento, por que a Teologia da Libertação gerou polêmica?
Quando se está desenvolvendo uma teologia, existem circunstâncias do contexto e são apresentadas questões que precisam ser esclarecidas. A Teologia da Libertação começou com a “Gaudium et Spes”, que contém uma nova definição das relações entre a Igreja e o mundo. A Teologia da Libertação era uma grande aplicação deste documento da Igreja à situação da América Latina.
Então, qual era o problema? Por que não funcionava?
Sim, funcionava. As duas instruções (da Congregação para a Doutrina da Fé, publicadas nos anos 1990) não rejeitaram a Teologia da Libertação. Nessa etapa da história era muito presente o comunismo soviético e existiam muitas pressões dessa ideologia. Quando nós falamos dos pobres, fazemos isso de uma maneira muito diferente dos comunistas. Não sonhamos com um paraíso terreno. Eles sempre reclamaram à Igreja que o cristianismo fala apenas do céu, mas nós não podemos dizer que falaremos apenas da terra. O homem é um ser que vive nesse mundo, mas possui ao mesmo tempo uma vocação universal, eterna, divina. Devemos integrar a responsabilidade, aqui, pela sociedade, justiça social, paz, sustentando sempre a dignidade humana, com a visão transcendente.
Essa é a tarefa da Igreja de hoje, a de entrar na agenda da sociedade moderna e, ao mesmo tempo, dizer que o fim último é Deus. É ruim quando se esquece desse último fim do homem. Não podemos argumentar contra a dignidade humana, porque não apenas os ricos e os poderosos não devem suprimir os pobres, explorar aos doentes menos poderosos. Apenas tendo como referência Deus, podemos falar da igualdade, da equidade dos homens.
Então, a Teologia da Libertação já está purificada de qualquer influência negativa?
Purificada não, foi esclarecida. Também em outras etapas da história da Igreja existiam discussões sobre os novos desafios. Nós somos homens, devemos discutir, encaramos o diálogo e, às vezes, até brigamos de uma maneira fraterna. Porém, não pode haver guerras de um contra o outro. Sempre deve ocorrer uma discussão séria, porque existem diversas perspectivas sobre um assunto, mas todos bebemos da fonte da doutrina da Igreja. A teologia é necessária para o desenvolvimento, para a atualização da doutrina da Igreja, que como tal é sempre a mesma.
Seu livro pretende ser um exercício definitivo de explicação, de “normalização”?
Sim. Os livros também possuem a tarefa de superar alguns preconceitos ou a falta de informação. Muitos preconceitos vêm de uma falta de comunicação, quando a gente fala muito superficialmente ou com palavras muito ligeiras, preconceituosas. Isso também é necessário para o estudo, o conhecimento e para buscar uma boa avaliação.
Como foi sua relação com Gustavo Gutiérrez?
Quando eu comecei como teólogo, ele já havia finalizado. Foi uma relação mútua, eu aprendi muito dele, discutimos muito os pontos problemáticos da Teologia da Libertação.
Os tempos amadureceram para a beatificação de dom Romero?
A Congregação para as Causas dos Santos tem a responsabilidade, mas cabe a nós dar o “nihil obstat” (sinal verde), porque nada nesse bispo é contra a ortodoxia. Lemos, estudamos todos os seus escritos, seus livros e homilias, estamos convencidos de maneira unânime que não existe objeção alguma na doutrina. Essa é a avaliação de nossa congregação, o resto deve prosseguir na dos Santos.