segunda-feira, 3 de março de 2014

Por que Jesus é chamado Leão da tribo de Judá?

Para respondermos esta questão que indaga sobre este titulo dado a Jesus teremos que beber das fontes do Judaísmo. Como se originou este termo, para quem era direcionado, qual o sentido histórico que possuía para o povo judaico, declarar a tribo de Judá como a guardiã do povo de Israel. O chamado Leão da tribo de Judá.

Comecemos com um versículo do livro do apocalipse, que nos coloca este título a Jesus:
“Todavia, um dos anciãos me disse: Não chores; eis que o Leão da Tribo de Judá, a Raiz de Davi, venceu para abrir o livro e os seus sete selos.” Apocalipse 5,5

E quem é o Leão da tribo de Judá? Seria Jesus!
O leão é o símbolo da Tribo de Judá, um dos filhos de Israel, e receberam de seu pai uma bênção especial. Gênesis 49,8-12 nos fala: Ele diz que os irmãos de Judá o louvarão e que a sua mão estará sobre os seus inimigos, Judá é considerado um leãozinho, isto é, ele será vitorioso sobre os seus inimigos e que o cetro, a autoridade, não se afastará dele e que a ele obedecerão os povos.

Características de um leão:
 O leão é forte, ágil, corajoso e não se intimida em enfrentar um adversário. Seu potente rugido assusta os animais que estão por perto. Seu rugido atemoriza seus inimigos.
O leão é dono absoluto de seu território, zela por ele e não se deixa apanhar desprevenido, mas está sempre vigilante. Seu rugido diz aos outros animais que aquele território tem dono, tem liderança.

Jesus é o Leão da Tribo de Judá
A primeira comunidade cristã passou a considerar a Jesus como a imagem do Leão da tribo de Judá que venceu o inimigo, foi morto na cruz, mas ressuscitou, derrotando a morte. O evangelho de Marcos é caracterizado pela figura do Leão, que mostra Jesus, o messias esperado, que vem salvar a humanidade.

Jesus, o Leão de Judá, rugiu poderosamente diante do poder do mal, declarando a sua derrota. Na Sua ressurreição, Jesus mostrou ao inimigo que Ele é a autoridade, dele é o Governo na terra e que o poder do mal já está derrotado, ele não tem lugar no território de Deus.
O evangelista Marcos contrapõe o poder do mal simbolizado pelo Império Romano e o poder de Jesus, Leão da tribo Judá, ele assegurará a vitória a comunidade cristã perseguida em Roma.


Fonte:

domingo, 2 de março de 2014

Francisco à Pontifícia Comissão para a América Latina: dar novamente esperança aos jovens desencantados


Educar não é somente transmitir conhecimento. A transmissão da fé, feita unicamente através do ensinamento de conteúdos, será superficial ou ideológica. Foi o que disse o Papa Francisco dirigindo nesta sexta-feira um longo e articulado discurso espontâneo – ou seja, sem texto – aos membros da Pontifícia Comissão para a América Latina. A transmissão da fé – disse o Santo Padre – não terá raízes se não for acompanhada de comportamentos e de valores.

Para poder transmitir a fé, além da divulgação de conteúdos, é necessário criar o hábito de uma conduta, favorecer a recepção de valores que a preparem e a façam crescer. A transmissão da fé – disse o Papa – se baseia em três pilares: utopia, memória e discernimento.

O primeiro, importante para as crianças e, sobretudo, para os jovens, "é a boa gestão da utopia". Na América Latina – recordou o Pontífice – "uma gestão não totalmente equilibrada da utopia", como no caso da Argentina, levou jovens da ação Católica a se unirem, nos anos setenta, à guerrilha. Mas saber fazer a utopia de um jovem "é uma riqueza", observou. "Um jovem sem utopia é um velho precoce."

Depois, os outros dois pilares: num jovem – acrescentou Francisco – uma utopia "cresce bem se acompanhada pela memória e discernimento. A utopia olha para o futuro, a memória olha para o passado, e o presente se discerne".

"O jovem deve receber a memória e plantar as raízes da sua utopia nesta memória; discernir no presente a sua utopia, o sinal dos tempos. Sim, a utopia segue adiante, mas é muito radicada na memória e na história que recebeu. Discernir no presente – precisamos de mestres de discernimento para os jovens! – e já projetado para o futuro."

A chave para enfrentar "a emergência educacional" – prosseguiu – é o encontro entre gerações, o encontro entre jovens e anciãos. De fato, este encontro permite conhecer o passado e saber ler o presente. A fé de um jovem – ressaltou em seguida o Pontífice – amadurece se não faltam a memória do passado, o discernimento do presente, e a utopia do futuro.

Mas o verdadeiro problema na sociedade de hoje é "a cultura do descarte": "hoje, para a economia que se radicou no mundo, no centro está o deus dinheiro e não a pessoa humana", afirmou o Santo Padre.

E, portanto, "tudo aquilo que não entra nesta ordem, se descarta. Descartam-se as crianças que sofrem, que incomodam e que não convém que cheguem", "descartam-se os anciãos" e "em alguns países da América Latina há a eutanásia escondida": por vezes são considerados "material de descarto".

Além disso, existem os jovens. Hoje em dia – afirmou – "incomoda a este sistema mundial a quantidade de jovens aos quais é necessário dar trabalho" e, portanto, há "esse percentual tão alto de desemprego juvenil. Estamos tendo uma geração de jovens que não têm a experiência da dignidade!"

Assim, "hoje também os jovens fazem parte deste material de descarto". E o jovem que se encontra sem trabalho "anestesia a utopia". A droga, que está destruindo esta geração de jovens", e "não é somente um problema de vício", e "a proliferação de dependências", quais a ludopatia, são alguns dos obstáculos ao longo do caminho das novas gerações.

"A utopia de um jovem entusiasta – disse o Papa – hoje se transformando em desencanto." É preciso dar fé e esperança aos jovens desencantados – afirmou o Pontífice dirigindo-se aos membros da Pontifícia Comissão para a América Latina.

Ademais, no discurso entregue, mas não lido, o Papa ressaltou que a "Igreja quer imitar Jesus no aproximar-se dos jovens". Deseja repetir que vale a pena seguir o exemplo que nos foi dado. Um exemplo de dedicação, de serviço, de amor desinteressado e de luta pela justiça e a verdade. É belo viver como Jesus, expulsando o egoísmo e deixando-se atrair pela beleza e pela bondade.

"Quem conhece Jesus profundamente – lê-se no texto – não fica na poltrona. Une-se a seu estilo de vida e chega a ser um discípulo missionário de seu Evangelho, dando alegre testemunho de sua fé, não poupando sacrifícios."

Os jovens ouçam a Palavra de Jesus, ouçam que Cristo não é um personagem de uma novela, mas uma pessoa viva. Os jovens esperam em nós. Não os decepcionemos! "Que as comunidades cristãs da América Latina e do Caribe – exortou por fim o Pontífice – saibam ser próximas, mestras e mães de todos e de cada um de seus jovens." (RL)


Fonte:


sábado, 1 de março de 2014

Müller e a Teologia da Libertação “normalizada”

Pobre e para os pobres”. As palavras do Papa são também o título do mais recente livro de Gerhard Ludwig Müller, prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé. Um texto que parece ser o passo definitivo para uma Teologia da Libertação “normalizada”. O volume, que conta com o prólogo de Francisco, foi apresentado em um auditório do Vaticano, a alguns passos da Praça de São Pedro, e com um relator surpresa: Gustavo Gutiérrez.
Müller é o principal artífice dessa “normalização” de uma corrente de pensamento que ainda provoca ardentes debates na América Latina. Ele é, há décadas, amigo pessoal de Gutiérrez, “pai” dessa teologia. Após a apresentação do livro, o recente cardeal alemão explicou aos jornalistas a razão pela qual a apoia sem hesitar.

A entrevista é publicada por Vatican Insider, 27-02-2014 . A tradução é do Cepat.

Eis a entrevista.
Em seu momento, por que a Teologia da Libertação gerou polêmica?
Quando se está desenvolvendo uma teologia, existem circunstâncias do contexto e são apresentadas questões que precisam ser esclarecidas. A Teologia da Libertação começou com a “Gaudium et Spes”, que contém uma nova definição das relações entre a Igreja e o mundo. A Teologia da Libertação era uma grande aplicação deste documento da Igreja à situação da América Latina.
Então, qual era o problema? Por que não funcionava?
Sim, funcionava. As duas instruções (da Congregação para a Doutrina da Fé, publicadas nos anos 1990) não rejeitaram a Teologia da Libertação. Nessa etapa da história era muito presente o comunismo soviético e existiam muitas pressões dessa ideologia. Quando nós falamos dos pobres, fazemos isso de uma maneira muito diferente dos comunistas. Não sonhamos com um paraíso terreno. Eles sempre reclamaram à Igreja que o cristianismo fala apenas do céu, mas nós não podemos dizer que falaremos apenas da terra. O homem é um ser que vive nesse mundo, mas possui ao mesmo tempo uma vocação universal, eterna, divina. Devemos integrar a responsabilidade, aqui, pela sociedade, justiça social, paz, sustentando sempre a dignidade humana, com a visão transcendente.
Essa é a tarefa da Igreja de hoje, a de entrar na agenda da sociedade moderna e, ao mesmo tempo, dizer que o fim último é Deus. É ruim quando se esquece desse último fim do homem. Não podemos argumentar contra a dignidade humana, porque não apenas os ricos e os poderosos não devem suprimir os pobres, explorar aos doentes menos poderosos. Apenas tendo como referência Deus, podemos falar da igualdade, da equidade dos homens.
Então, a Teologia da Libertação já está purificada de qualquer influência negativa?
Purificada não, foi esclarecida. Também em outras etapas da história da Igreja existiam discussões sobre os novos desafios. Nós somos homens, devemos discutir, encaramos o diálogo e, às vezes, até brigamos de uma maneira fraterna. Porém, não pode haver guerras de um contra o outro. Sempre deve ocorrer uma discussão séria, porque existem diversas perspectivas sobre um assunto, mas todos bebemos da fonte da doutrina da Igreja. A teologia é necessária para o desenvolvimento, para a atualização da doutrina da Igreja, que como tal é sempre a mesma.
Seu livro pretende ser um exercício definitivo de explicação, de “normalização”?
Sim. Os livros também possuem a tarefa de superar alguns preconceitos ou a falta de informação. Muitos preconceitos vêm de uma falta de comunicação, quando a gente fala muito superficialmente ou com palavras muito ligeiras, preconceituosas. Isso também é necessário para o estudo, o conhecimento e para buscar uma boa avaliação.
Como foi sua relação com Gustavo Gutiérrez?
Quando eu comecei como teólogo, ele já havia finalizado. Foi uma relação mútua, eu aprendi muito dele, discutimos muito os pontos problemáticos da Teologia da Libertação.
Os tempos amadureceram para a beatificação de dom Romero?
A Congregação para as Causas dos Santos tem a responsabilidade, mas cabe a nós dar o “nihil obstat” (sinal verde), porque nada nesse bispo é contra a ortodoxia. Lemos, estudamos todos os seus escritos, seus livros e homilias, estamos convencidos de maneira unânime que não existe objeção alguma na doutrina. Essa é a avaliação de nossa congregação, o resto deve prosseguir na dos Santos.




quinta-feira, 6 de fevereiro de 2014

MENSAGEM DO SANTO PADRE FRANCISCO PARA A XXIX JORNADA MUNDIAL DA JUVENTUDE - Felizes os pobres em espírito…

MENSAGEM DO SANTO PADRE FRANCISCO
 PARA A XXIX JORNADA MUNDIAL DA JUVENTUDE
(Domingo de Ramos, 13 de Abril de 2014)
«Felizes os pobres em espírito, porque deles é o Reino do Céu» (Mt 5, 3) 

 Felizes os pobres em espírito…

A primeira Bem-aventurança, tema da próxima Jornada Mundial da Juventude, declara felizes os pobres em espírito, porque deles é o Reino do Céu. Num tempo em que muitas pessoas penam por causa da crise económica, pode parecer inoportuno acostar pobreza e felicidade. Em que sentido podemos conceber a pobreza como uma bênção?

Em primeiro lugar, procuremos compreender o que significa «pobres em espírito». Quando o Filho de Deus Se fez homem, escolheu um caminho de pobreza, de despojamento. Como diz São Paulo, na Carta aos Filipenses: «Tende entre vós os mesmos sentimentos que estão em Cristo Jesus: Ele, que é de condição divina, não considerou como uma usurpação ser igual a Deus; no entanto, esvaziou-Se a Si mesmo, tomando a condição de servo e tornando-Se semelhante aos homens» (2, 5-7). Jesus é Deus que Se despoja da sua glória. Vemos aqui a escolha da pobreza feita por Deus: sendo rico, fez-Se pobre para nos enriquecer com a sua pobreza (cf. 2 Cor 8, 9). É o mistério que contemplamos no presépio, vendo o Filho de Deus numa manjedoura; e mais tarde na cruz, onde o despojamento chega ao seu ápice. 

O adjectivo grego ptochós (pobre) não tem um significado apenas material, mas quer dizer «mendigo». Há que o ligar com o conceito hebraico de anawim (os «pobres de Iahweh»), que evoca humildade, consciência dos próprios limites, da própria condição existencial de pobreza. Os anawim confiam no Senhor, sabem que dependem d’Ele. 

Como justamente soube ver Santa Teresa do Menino Jesus, Cristo na sua Encarnação apresenta-Se como um mendigo, um necessitado em busca de amor. O Catecismo da Igreja Católica fala do homem como dum «mendigo de Deus» (n. 2559) e diz-nos que a oração é o encontro da sede de Deus com a nossa (n. 2560).

São Francisco de Assis compreendeu muito bem o segredo da Bem-aventurança dos pobres em espírito. De facto, quando Jesus lhe falou na pessoa do leproso e no Crucifixo, ele reconheceu a grandeza de Deus e a própria condição de humildade. Na sua oração, o Poverello passava horas e horas a perguntar ao Senhor: «Quem és Tu? Quem sou eu?» Despojou-se duma vida abastada e leviana, para desposar a «Senhora Pobreza», a fim de imitar Jesus e seguir o Evangelho à letra. Francisco viveu a imitação de Cristo pobre e o amor pelos pobres de modo indivisível, como as duas faces duma mesma moeda.

Posto isto, poder-me-íeis perguntar: Mas, em concreto, como é possível fazer com que esta pobreza em espírito se transforme em estilo de vida, incida concretamente na nossa existência? Respondo-vos em três pontos.

Antes de mais nada, procurai ser livres em relação às coisas. O Senhor chama-nos a um estilo de vida evangélico caracterizado pela sobriedade, chama-nos a não ceder à cultura do consumo. Trata-se de buscar a essencialidade, aprender a despojarmo-nos de tantas coisas supérfluas e inúteis que nos sufocam. Desprendamo-nos da ambição de possuir, do dinheiro idolatrado e depois esbanjado. No primeiro lugar, coloquemos Jesus. Ele pode libertar-nos das idolatrias que nos tornam escravos. Confiai em Deus, queridos jovens! Ele conhece-nos, ama-nos e nunca se esquece de nós. Como provê aos lírios do campo (cf. Mt 6, 28), também não deixará que nos falte nada! Mesmo para superar a crise económica, é preciso estar prontos a mudar o estilo de vida, a evitar tantos desperdícios. Como é necessária a coragem da felicidade, também é precisa a coragem da sobriedade.

Em segundo lugar, para viver esta Bem-aventurança todos necessitamos de conversão em relação aos pobres. Devemos cuidar deles, ser sensíveis às suas carências espirituais e materiais. A vós, jovens, confio de modo particular a tarefa de colocar a solidariedade no centro da cultura humana. Perante antigas e novas formas de pobreza – o desemprego, a emigração, muitas dependências dos mais variados tipos –, temos o dever de permanecer vigilantes e conscientes, vencendo a tentação da indiferença. Pensemos também naqueles que não se sentem amados, não olham com esperança o futuro, renunciam a comprometer-se na vida porque se sentem desanimados, desiludidos, temerosos. Devemos aprender a estar com os pobres. Não nos limitemos a pronunciar belas palavras sobre os pobres! Mas encontremo-los, fixemo-los olhos nos olhos, ouçamo-los. Para nós, os pobres são uma oportunidade concreta de encontrar o próprio Cristo, de tocar a sua carne sofredora. 

Mas – e chegamos ao terceiro ponto – os pobres não são pessoas a quem podemos apenas dar qualquer coisa. Eles têm tanto para nos oferecer, para nos ensinar. Muito temos nós a aprender da sabedoria dos pobres! Pensai que um Santo do século XVIII, Bento José Labre – dormia pelas ruas de Roma e vivia das esmolas da gente –, tornara-se conselheiro espiritual de muitas pessoas, incluindo nobres e prelados. De certo modo, os pobres são uma espécie de mestres para nós. Ensinam-nos que uma pessoa não vale por aquilo que possui, pelo montante que tem na conta bancária. Um pobre, uma pessoa sem bens materiais, conserva sempre a sua dignidade. Os pobres podem ensinar-nos muito também sobre a humildade e a confiança em Deus. Na parábola do fariseu e do publicano (cf. Lc 18, 9-14), Jesus propõe este último como modelo, porque é humilde e se reconhece pecador. E a própria viúva, que lança duas moedinhas no tesouro do templo, é exemplo da generosidade de quem, mesmo tendo pouco ou nada, dá tudo (Lc 21, 1-4).

MENSAGEM DO SANTO PADRE FRANCISCO PARA A XXIX JORNADA MUNDIAL DA JUVENTUDE

MENSAGEM DO SANTO PADRE FRANCISCO
 PARA A XXIX JORNADA MUNDIAL DA JUVENTUDE
«Felizes os pobres em espírito, porque deles é o Reino do Céu» (Mt 5, 3)  

A força revolucionária das Bem-aventuranças
É-nos sempre muito útil ler e meditar as Bem-aventuranças! Jesus proclamou-as no seu primeiro grande sermão, feito na margem do lago da Galileia. Havia uma multidão imensa e Ele, para ensinar os seus discípulos, subiu a um monte; por isso é chamado o «sermão da montanha». Na Bíblia, o monte é visto como lugar onde Deus Se revela; pregando sobre o monte, Jesus apresenta-Se como mestre divino, como novo Moisés. E que prega Ele? Jesus prega o caminho da vida; aquele caminho que Ele mesmo percorre, ou melhor, que é Ele mesmo, e propõe-no como caminho da verdadeira felicidade. Em toda a sua vida, desde o nascimento na gruta de Belém até à morte na cruz e à ressurreição, Jesus encarnou as Bem-aventuranças. Todas as promessas do Reino de Deus se cumpriram n’Ele. 

Ao proclamar as Bem-aventuranças, Jesus convida-nos a segui-Lo, a percorrer com Ele o caminho do amor, o único que conduz à vida eterna. Não é uma estrada fácil, mas o Senhor assegura-nos a sua graça e nunca nos deixa sozinhos. Na nossa vida, há pobreza, aflições, humilhações, luta pela justiça, esforço da conversão quotidiana, combates para viver a vocação à santidade, perseguições e muitos outros desafios. Mas, se abrirmos a porta a Jesus, se deixarmos que Ele esteja dentro da nossa história, se partilharmos com Ele as alegrias e os sofrimentos, experimentaremos uma paz e uma alegria que só Deus, amor infinito, pode dar. 

As Bem-aventuranças de Jesus são portadoras duma novidade revolucionária, dum modelo de felicidade oposto àquele que habitualmente é transmitido pelos mass media, pelo pensamento dominante. Para a mentalidade do mundo, é um escândalo que Deus tenha vindo para Se fazer um de nós, que tenha morrido numa cruz. Na lógica deste mundo, aqueles que Jesus proclama felizes são considerados «perdedores», fracos. Ao invés, exalta-se o sucesso a todo o custo, o bem-estar, a arrogância do poder, a afirmação própria em detrimento dos outros. 

Queridos jovens, Jesus interpela-nos para que respondamos à sua proposta de vida, para que decidamos qual estrada queremos seguir a fim de chegar à verdadeira alegria. Trata-se dum grande desafio de fé. Jesus não teve medo de perguntar aos seus discípulos se verdadeiramente queriam segui-Lo ou preferiam ir por outros caminhos (cf. Jo 6, 67). E Simão, denominado Pedro, teve a coragem de responder: «A quem iremos nós, Senhor? Tu tens palavras de vida eterna» (Jo 6, 68). Se souberdes, vós também, dizer «sim» a Jesus, a vossa vida jovem encher-se-á de significado, e assim será fecunda. 

quarta-feira, 5 de fevereiro de 2014

“A Teologia da Libertação sadia nunca foi condenada”. Entrevista com o cardeal Müller

Teologia da Libertação sadia nunca foi condenada, mas foi um elemento legítimo da teologia católica. A teologia tem que dar uma resposta a uma situação, sobretudo na América Latina, onde tantos homens vivem abaixo da dignidade humana, não tem nada que comer ou dar para comer a seus filhos, sem uma formação escolar ou um trabalho. A situação é muito ruim. Por isso, o Santo Padre Francisco também disse que a Igreja é responsável do homem como corpo, como ser social. Há tempo, temos a Doutrina Social da Igreja, mas, também, esta Teologia que se desenvolveu após a Gaudium et Spes e do Vaticano II adquiriu clara legitimidade. O magistério denunciou algumas formas ou ideias que não concordavam com a teologia católica, mas Gustavo Gutiérrez nunca caiu nesta armadilha de certo marxismo ou na luta de classes. Os homens de Jesus Cristo devem superar as guerras sociais, as guerras com as armas, entre tribos. Também na Espanha, todos devem se entender como espanhóis, apesar de haver uma cultura na Catalunha, no País Basco ou em Castela. Todos os países na Europa possuem diferentes culturas: isto enriquece em si mesmo. Contudo, é inútil dividir uma nação. Acreditamos em Pentecostes, todos os homens de diferentes culturas e línguas... Como Igreja, temos que ser exemplos, modelo desta forma de viver dos homens juntos, apesar das diferenças em todas as dimensões da vida humana. Estas diferenças são adequadas à vontade de Deus, e temos que viver juntos. Um corpo em Jesus Cristo. Muitos carismas do Espírito Santo.


PARA LER MAIS:


  • 18/09/2013 - “Müller? Um bom teólogo, mas um pouco ingênuo”, espeta o cardeal Cipriani
  • 07/09/2013 - Estabelecida a paz entre Müller e Gutiérrez
  • 05/09/2013 - Praticar a verdade, e não apenas dizê-la. Artigo de Gerhard Ludwig Müller
  • 23/05/2013 - “É necessário distinguir entre uma Teologia da Libertação equivocada e uma correta”, afirma Gerhard Müller
  • 30/01/2013 - “A contraposição da liturgia do antes e do pós-conciliar é um instrumento ideológico”, destaca Gerhard Müller
  • 15/09/2012 - “Minhas experiências sobre a Teologia da Libertação”. Artigo de Gerhard Müller
  • 05/07/2012 - Müller e a Teologia da Libertação
  • 03/07/2012 - Müller, novo Prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé
  • terça-feira, 4 de fevereiro de 2014

    “Fez-Se pobre, para nos enriquecer com a sua pobreza”: Mensagem do Papa para Quaresma

    À imitação do nosso Mestre, nós, cristãos, somos chamados a ver as misérias dos irmãos, a tocá-las, a ocupar-nos delas e a trabalhar concretamente para as aliviar. A miséria não coincide com a pobreza; a miséria é a pobreza sem confiança, sem solidariedade, sem esperança. Podemos distinguir três tipos de miséria: a miséria material, a miséria moral e a miséria espiritual. A miséria material é a que habitualmente designamos por pobreza e atinge todos aqueles que vivem numa condição indigna da pessoa humana: privados dos direitos fundamentais e dos bens de primeira necessidade como o alimento, a água, as condições higiénicas, o trabalho, a possibilidade de progresso e de crescimento cultural. Perante esta miséria, a Igreja oferece o seu serviço, a sua diakonia, para ir ao encontro das necessidades e curar estas chagas que deturpam o rosto da humanidade. Nos pobres e nos últimos, vemos o rosto de Cristo; amando e ajudando os pobres, amamos e servimos Cristo. O nosso compromisso orienta-se também para fazer com que cessem no mundo as violações da dignidade humana, as discriminações e os abusos, que, em muitos casos, estão na origem da miséria. Quando o poder, o luxo e o dinheiro se tornam ídolos, acabam por se antepor à exigência duma distribuição equitativa das riquezas. Portanto, é necessário que as consciências se convertam à justiça, à igualdade, à sobriedade e à partilha.

    Não menos preocupante é a miséria moralque consiste em tornar-se escravo do vício e do pecado. Quantas famílias vivem na angústia, porque algum dos seus membros – frequentemente jovem – se deixou subjugar pelo álcool, pela droga, pelo jogo, pela pornografia! Quantas pessoas perderam o sentido da vida; sem perspetivas de futuro, perderam a esperança! E quantas pessoas se veem constrangidas a tal miséria por condições sociais injustas, por falta de trabalho que as priva da dignidade de poderem trazer o pão para casa, por falta de igualdade nos direitos à educação e à saúde. Nestes casos, a miséria moral pode-se justamente chamar um suicídio incipiente. Esta forma de miséria, que é causa também de ruína económica, anda sempre associada com a miséria espiritualque nos atinge quando nos afastamos de Deus e recusamos o seu amor. Se julgamos não ter necessidade de Deus, que em Cristo nos dá a mão, porque nos consideramos autossuficientes, vamos a caminho da falência. O único que verdadeiramente salva e liberta é Deus.

    O Evangelho é o verdadeiro antídoto contra a miséria espiritual: o cristão é chamado a levar a todo o ambiente o anúncio libertador de que existe o perdão do mal cometido, de que Deus é maior que o nosso pecado e nos ama gratuitamente e sempre, e de que estamos feitos para a comunhão e a vida eterna. O Senhor convida-nos a sermos jubilosos anunciadores desta mensagem de misericórdia e esperança. É bom experimentar a alegria de difundir esta boa nova, partilhar o tesouro que nos foi confiado para consolar os corações dilacerados e dar esperança a tantos irmãos e irmãs imersos na escuridão. Trata-se de seguir e imitar Jesus, que foi ao encontro dos pobres e dos pecadores como o pastor à procura da ovelha perdida, e fê-lo cheio de amor. Unidos a Ele, podemos corajosamente abrir novas vias de evangelização e promoção humana.

    Queridos irmãos e irmãs, possa este tempo de Quaresma encontrar a Igreja inteira pronta e solícita para testemunhar, a quantos vivem na miséria material, moral e espiritual, a mensagem evangélica, que se resume no anúncio do amor do Pai misericordioso, pronto a abraçar em Cristo toda a pessoa. E poderemos fazê-lo na medida em que estivermos configurados com Cristo, que Se fez pobre e nos enriqueceu com a sua pobreza. A Quaresma é um tempo propício para o despojamento; e far-nos-á bem questionar-nos acerca do que nos podemos privar a fim de ajudar e enriquecer a outros com a nossa pobreza. Não esqueçamos que a verdadeira pobreza dói: não seria válido um despojamento sem esta dimensão penitencial. Desconfio da esmola que não custa nem dói.