Não se sabe. Pelo menos nenhum texto dos Atos ou
das Cartas o refere. Mas se nos fizessem a pergunta, e sem pensar muito, quase
todos diríamos que sim. Simplesmente porque a tradição iconográfica representou
o Apóstolo dessa maneira, e numa intensidade tão impressiva, que estávamos
prontos a jurar ter lido em qualquer passo acerca dele. Há, de facto, um
inesquecível cavalo, mas nas imagens de Dürer, Miguel Ângelo, Tintoretto,
Rubens, Parmigianino… - uma lista interminável! Frequentemente referido é o da pintura
de Caravaggio, intitulada "Conversão de São Paulo": Paulo surge caído
por terra, com os braços abertos e levantados, como quem acolhe o invisível; os
olhos completamente cerrados, ligados agora a outro entendimento. E, no centro,
um cavalo imenso, a deslocar-se suavemente para fora de cena, como se não fosse
já necessário, ou adivinhasse que começava, precisamente aqui, outro tipo de
viagens para o seu cavaleiro derrubado. Se o texto bíblico não alude à presença
de um cavalo, como se chegou a essa representação? Há um motivo que joga com
aquilo que o relato não diz, mas que é previsível (de facto, o cavalo seria um
meio de transporte utilizado). E há uma importante razão simbólica. O texto de Atos
9 conta que Paulo "respirava ameaças e mortes contra os discípulos do
Jesus" e foi pedir ao Sumo Sacerdote "cartas para as sinagogas de
Damasco, a fim de que, se encontrasse homens e mulheres que fossem desta Via,
os trouxesse algemados para Jerusalém". O seu retrato é, portanto, o de um
homem investido de força, acorrentado a uma convicção implacável. Ora o que a
narrativa vai, em seguida, mostrar é a prostração e a fragilidade de uma
personalidade assim perante a revelação de Jesus ("Saulo, Saulo, porque me
persegues?"). Os textos bíblicos não dizem que Paulo tombou de um cavalo,
apenas que "caiu por terra". Mas interpretando a reviravolta que este
encontro provocou, artistas e comentadores espirituais não hesitaram em
enfatizar esta queda. A globalidade da história de Paulo mostra que estão
certos.
terça-feira, 24 de janeiro de 2017
terça-feira, 17 de maio de 2016
O título Logos aplicado a Jesus
Somente no
prólogo do quarto evangelho é que São João atribui a Jesus o título de logos.
Isto significa que, para o Novo Testamento, tal título não ocupa um lugar
central como o Filho do Homem, como Cristo, etc. A aplicação do título de Logos
para Jesus, em João, tem a finalidade de preencher uma lacuna deixada pelos
evangelhos sinóticos, a saber: todos eles apresentam Jesus a partir da criação,
João pretende apresentar Jesus desde toda a eternidade, superando até mesmo o
livro de Gênesis, pois, não inclui Jesus como obra criada por Deus, mas sim,
como co-autor ao lado do Pai em toda a obra da criação. Assim, este título se
torna indispensável para compreender o autor que pretende apresentar a relação
de Deus com Jesus e a sua pré-existência,10 em todo o seu relato.
Por outro
lado, sabemos que Logos significa Palavra, e nesse sentido, afirmar que Jesus é
o Logos permite-nos afirmar que Jesus é a Palavra. Tal raciocínio é análogo
àquele que nos leva a afirmar que Jesus é o Caminho, a Verdade, a Vida, Deus
feito homem. Assim, não se pode afirmar com facilidade que o Logos não tenha
sido tratado em outros escritos do Novo Testamento. Ao dizer que Jesus é a
Palavra, de maneira indireta, estamos afirmando que Jesus é o Logos, e, neste
sentido, o Novo Testamento nos apresenta Jesus como a Palavra viva de Deus em
vários pontos dos seus escritos. No evangelho de João, portanto, merecem
destaque os significados dos seguintes termos: “Palavra” e “Verbo”. Ora,
enquanto “Palavra de Deus”, o Logos quer significar o conteúdo da revelação e
da criação (Jo 1,3.18; 1Cor 8,6; Cl 1,17; Hb 1,1-2). A palavra evidencia a
criação de todas as coisas. É um sinal que expressa a vontade e a força de
Deus, sua sabedoria e ação (1Cor 1,30; Ef 3,8-11; Cl 2,2-3). Ela também revela
os propósitos escritos no coração de Deus (Jo 1,3; Cl 1,18; 4,34; 5,30; 6,38).
O Logos é o
próprio verbo divino, aquele que dá sentido a todas as coisas (Cl 1,17).11 O
evangelho de São João tem uma intenção: traçar uma linha direta entre a vida
humana de Jesus como o centro da revelação plena da verdade divina. Deus, que
por sua vez é incansável, torna-se atingível pela Palavra: “primeiro na
criação; depois na encarnação, porque este Logos chega a converter-se em homem.
E é então que sabemos que Jesus de Nazaré e o Logos se identificam.”
Fonte:
sábado, 7 de maio de 2016
Sacerdote in persona Christi
Para entender o que significa agir in persona Christi Capitis – na
pessoa de Cristo Cabeça – por parte do sacerdote, e para
compreender inclusive quais consequências derivam da tarefa de representar o
Senhor, especialmente no exercício destes três ofícios, antes de tudo é preciso
esclarecer o que se entende por "representação". O sacerdote representa
Cristo. O que quer dizer, o que significa "representar" alguém? Na
linguagem comum, quer dizer – geralmente – receber
uma delegação de uma pessoa para estar presente no seu lugar, falar e agir no
seu lugar, porque quem é representado está ausente da acção concreta.
Perguntamo-nos: o sacerdote representa o Senhor do mesmo modo? A resposta é
não, porque na Igreja Cristo nunca está ausente, a Igreja é o seu corpo vivo e
a Cabeça da Igreja é Ele, presente e em acção nela. Cristo nunca está ausente,
aliás está presente de um modo totalmente livre dos limites de espaço e tempo,
graças ao evento da Ressurreição, que contemplamos de maneira especial neste
período de Páscoa.
Portanto, o sacerdote que age in persona Christi Capitis e em representação do Senhor, nunca
age em nome de um ausente, mas na própria Pessoa de Cristo Ressuscitado, que se
torna presente com a sua acção realmente eficaz. Age de facto e realiza o que o
sacerdote não poderia fazer: a consagração do vinho e do pão para que sejam
realmente presença do Senhor, a absolvição dos pecados. O Senhor torna presente
a sua própria acção na pessoa que realiza tais gestos. Estas três tarefas do
sacerdote – que a Tradição identificou nas
diversas palavras de missão do Senhor: ensinar, santificar e governar – na
sua distinção e profunda unidade são uma especificação desta representação
eficaz. São na verdade as três acções do Cristo Ressuscitado, o mesmo que hoje
na Igreja e no mundo ensina e assim cria fé, reúne o seu povo, cria presença da
verdade e constrói realmente a comunhão da Igreja universal; e santifica e
guia.
A primeira tarefa sobre a qual gostaria de falar hoje é o munus docendi, isto é, ensinar. Hoje, em plena
emergência educativa, omunus docendi da
Igreja, exercido concretamente através do ministério de cada sacerdote, resulta
particularmente importante. Vivemos numa grande confusão acerca das escolhas
fundamentais da nossa vida e das interrogações sobre o que é o mundo, de onde
vimos, para onde vamos, o que devemos fazer para fazer o bem, como devemos
viver, quais são os valores realmente pertinentes. Em relação a tudo isto
existem muitas filosofias contrastantes, que nascem e desaparecem, criando
confusão sobre as decisões fundamentais, como viver, porque já não sabemos,
comummente, do que e para que somos feitos e para onde vamos. Nesta situação
realiza-se a palavra do Senhor, que teve compaixão da multidão porque eram como
ovelhas sem pastor (cf.Mc 6,
34). O Senhor tinha feito esta constatação quando viu os milhares de pessoas
que o seguiam no deserto porque, na diversidade das correntes daquele tempo, já
não sabiam qual fosse o verdadeiro sentido da Escritura, o que dizia Deus. O
Senhor, movido pela compaixão, interpretou a palavra de Deus, ele mesmo é a
palavra de Deus, e assim deu uma orientação. Esta é a função in persona Christi do sacerdote: tornar presente, na
confusão e na desorientação dos nossos tempos, a luz da palavra de Deus, a luz
que é o próprio Cristo neste nosso mundo. Por conseguinte, o sacerdote não
ensina as próprias ideias, uma filosofia que ele mesmo inventou, encontrou ou
que gosta; o sacerdote não fala de si mesmo, não fala por si mesmo, talvez para
criar admiradores ou um partido próprio; não diz coisas próprias, invenções
suas mas, na confusão de todas as filosofias, o sacerdote ensina em nome de
Cristo presente, propõe a verdade que é o próprio Cristo, a sua palavra, o seu
modo de viver e de ir em frente. Para o sacerdote vale o que Cristo disse sobre
si mesmo: "A minha doutrina não é minha" (Jo 7, 16); isto é, Cristo não se propõe a
si mesmo, mas, como Filho, é a voz, a palavra do Pai. Também o sacerdote deve
sempre dizer e agir assim: "a minha doutrina não é minha, não difundo as
minhas ideias ou o que me agrada, mas são boca e coração de Cristo e torno
presente esta única e comum doutrina, que criou a Igreja universal e que cria
vida eterna".
Este facto, que o sacerdote não inventa, não cria e não
proclama ideias próprias porque a doutrina que anuncia não é sua, mas de
Cristo, por outro lado, não significa que ele seja neutro, quase como um
porta-voz que lê um texto do qual, talvez, nem se apropria. Também neste caso,
vale o modelo de Cristo, que disse: Eu não sou para mim e não vivo para mim,
mas venho do Pai e vivo para o Pai. Portanto, nesta identificação profunda, a
doutrina de Cristo é a do Pai e Ele mesmo é um só com o Pai. O sacerdote que
anuncia a palavra de Cristo, a fé da Igreja e não as próprias ideias, deve
dizer também: Eu não vivo por mim e para mim, mas vivo com Cristo e para Cristo
e portanto tudo aquilo que Cristo nos disse torna-se a minha palavra não
obstante não seja minha. A vida do sacerdote deve identificar-se com Cristo e,
deste modo, a palavra não própria torna-se, contudo, uma palavra profundamente
pessoal. Santo Agostinho, sobre este tema, falando acerca dos sacerdotes,
disse: "E nós o que somos? Ministros (de Cristo), seus servidores; porque
o que distribuímos a vós não é nosso, mas tiramo-lo da sua despensa. E
inclusive nós vivemos dela, porque somos servos como vós" (Discurso
229/e, 4).
O ensinamento que o sacerdote é chamado a oferecer, as
verdades da fé, devem ser interiorizadas e vividas num intenso caminho
espiritual pessoal, de forma que realmente o sacerdote entre numa profunda,
interior comunhão com o próprio Cristo. O sacerdote crê, acolhe e procura
viver, antes de tudo como próprio, quanto o Senhor ensinou e a Igreja
transmitiu, naquele percurso de identificação com o próprio ministério do qual
São João Maria Vianney é testemunha exemplar (cf. Carta para a proclamação do Ano sacerdotal). "Unidos na mesma caridade – afirma
ainda Santo Agostinho – todos somos auditores daquele que é
para nós no céu o único Mestre" (Enarr. in Ps. 131, 1, 7).
Por conseguinte, com frequência a voz do sacerdote poderia
parecer "a de um que grita no deserto" (Mc 1, 3), mas exactamente nisto consiste
a sua força profética: em nunca ser homologado, nem homologável, a alguma
cultura ou mentalidade dominante, mas em mostrar a única novidade capaz de
produzir uma autêntica e profunda renovação do homem, ou seja, que Cristo é o
Vivente, é o Deus próximo, o Deus que age na vida e para a vida do mundo e nos
doa a verdade, o modo de viver.
Na preparação atenta da pregação festiva, sem excluir a dos
dias úteis, no esforço de formação catequética, nas escolas, nas instituições
académicas e, de modo especial, através daquele livro não escrito que é a
própria vida, o sacerdote é sempre "professor", ensina. Mas não com a
presunção de quem impõe as próprias verdades, mas com a humilde e jubilosa
certeza de quem encontrou a Verdade, foi capturado e transformado por ela, e
por conseguinte não pode deixar de a anunciar. Com efeito, ninguém pode
escolher o sacerdócio por si mesmo, não é um modo para alcançar a segurança na
vida, para conquistar uma posição social: ninguém pode obtê-lo nem procurá-lo
sozinho. O sacerdócio é resposta ao chamamento do Senhor, à sua vontade, para
se tornar anunciadores não de uma verdade pessoal, mas da sua verdade.
O Povo cristão pede para escutar dos nossos mestres a
genuína doutrina eclesial, através da qual se possa renovar o encontro com
Cristo que doa a alegria, a paz e a salvação. A Sagrada Escritura, os escritos
dos Padres e dos Doutores da Igreja e o Catecismo da Igreja Católica
constituem, a este propósito, pontos de referência imprescindíveis no exercício
do munus docendi, tão essencial para a conversão, o
caminho de fé e a salvação dos homens. "Ordenação sacerdotal significa:
estar imersos (...) na Verdade" (Homilia da Missa Crismal, 9 de Abril de 2009), aquela Verdade que não é
simplesmente um conceito ou um conjunto de ideias a transmitir e assimilar, mas
que é a Pessoa de Cristo, com a qual, pela qual e na qual viver e assim,
necessariamente, nasce também a actualidade e a compreensão do anúncio. Só esta
consciência de uma Verdade feita Pessoa na Encarnação do Filho justifica o
mandato missionário: "Ide pelo mundo inteiro e anunciai a Boa Nova a toda
a humanidade" (Mc 15,
16). Só se se trata da Verdade ela está destinada a toda a humanidade, não é
uma imposição de algo, mas a abertura do coração àquilo pelo qual se foi
criado.
O Senhor confiou aos Sacerdotes uma grande tarefa: ser
anunciadores da Sua Palavra, da Verdade que salva; ser a sua voz no mundo para
levar aquilo que beneficia o bem verdadeiro das almas e o autêntico caminho de
fé (cf. 1 Cor6, 12). São
João Maria Vianney seja exemplo para todos os Sacerdotes. Ele era homem de
grande sabedoria e heróica força ao resistir às pressões culturais e sociais do
seu tempo para poder guiar as almas para Deus: simplicidade, fidelidade e
proximidade eram as características essenciais da sua pregação, transparência
da sua fé e da sua santidade. O Povo cristão era edificado e, como acontece
para os autênticos mestres de todos os tempos, reconhecia nele a luz da
Verdade. Em definitiva, reconhecia nele o que se deveria reconhecer sempre num
sacerdote: a voz do Bom Pastor.
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Eucaristia, sinal visível da presença de Deus
A recepção de Jesus
Cristo sacramentado sob as espécies de pão e vinho na sagrada Comunhão
significa e verifica o alimento espiritual da alma. E assim, enquanto que nela
se dá a graça invisível sob espécies visíveis, guarda razão de sacramento.
Jesus ao instituir a Eucaristia lhe confere intrinsecamente o valor sacramental,
pois através dela Ele nos transmite sua graça, sua presença viva. Por isso, a
Eucaristia é o mais importante dos sacramentos, de onde saem e para onde se
dirigem todos os demais, centro da vida litúrgica, expressão e alimento da
comunhão cristã.
Sacramento
de Unidade. Ao nos referirmos à Eucaristia como
Comunhão, estamos proclamando nossa união entre todos os cristãos e nossa adesão
à Igreja com Jesus. Por isso, a Eucaristia é um sacramento de unidade da
Igreja, e sua celebração só é possível onde há uma comunidade de fiéis.
Sacramento
do amor fraterno. Na mesma noite em que Jesus instituiu
a Eucaristia, instituiu o mandamento do amor. Portanto, a Eucaristia e o amor
aos demais têm que andar sempre juntos. Jesus institui a Eucaristia como prova
de seu imenso amor por nós e pede aos que vamos participar dela, que nos amemos
como Ele nos amou. E, neste sentido, a Eucaristia deve estar necessariamente
antecedida pelo Sacramento da Reconciliação, pois o receber o “alimento de vida
eterna” exige uma reconciliação constante com os irmãos e com Deus Pai.
O mistério eucarístico,
desgarrado de sua própria natureza sacrificial e sacramental, deixa
simplesmente de ser tal. Não admite nenhuma imitação “profana”, que se
converteria muito facilmente (se não até mesmo como norma) em uma profanação.
Isto deve ser sempre lembrado, e principalmente em nosso tempo em que
observamos uma tendência a apagar a distinção entre “sacrum” e “profanum”, dada
a difundida tendência geral (ao menos em alguns lugares) à dessacralização de
tudo.
Em tal realidade a
Igreja tem o dever particular de assegurar e corroborar o “sacrum” da
Eucaristia. Em nossa sociedade pluralista, e às vezes também deliberadamente
secularizada, a fé viva da comunidade cristã -fé consciente inclusive dos
próprios direitos a respeito de todos aqueles que não compartilham a mesma fé-
garante a este “sacrum” o direito de cidadania. O dever de respeitar a fé de
cada um é ao mesmo tempo co-relativa ao direito natural e civil da liberdade de
consciência e de religião.
Os sacerdotes, agindo in persona Christi, devem, portanto, principalmente em nossos dias, ser iluminados pela
plenitude desta fé viva, e à luz dela, devem compreender e cumprir tudo o que
faz parte de seu ministério, por vontade de Cristo e de sua Igreja.
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terça-feira, 3 de maio de 2016
Servo de YHWH
Servo
de YHWH.
Falar
de profetismo é fazer memória dos vários profetas do mundo bíblico que marcaram
a história do povo de Israel. É falar de pessoas que tiveram a coragem e a
ousadia de ouvir o chamado de Deus e ser porta-vozes de Deus no anúncio de sua
profecia. Pessoas que denunciaram as injustiças, as iniquidades, as violências e
anunciaram um novo tempo de esperança, de justiça, de paz, e se tornaram “luz das
nações” (Is 49,6).
A
partir de recordações baseadas em alguns teóricos e de forma concisa é que faremos
a construção do termo profeta-servo no exílio da Babilônia, falaremos da experiência
do profeta-servo, dos caminhos do anúncio do profeta-servo e, finalmente, daremos
nossas considerações finais. Nosso objetivo, com esta reflexão, é apresentar o
profeta-servo do exílio da Babilônia a partir do segundo canto do Servo de
YHWH.
O
termo profeta-servo no período do exílio
No
período de exílio (séc. VI a.C.) a pregação do profeta do Dêutero-Isaías se concretizava
com a esperança do povo de Israel. A esperança na mão poderosa de Deus prometia
um novo céu e uma nova terra. O profeta anunciava a esperança e convidava o
povo de Israel a participar da Aliança de Deus através da conversão. Nesse
anúncio o enfoque central foi a trajetória dos quatro cantos do Servo de YHWH,
vocação (42,1-4), missão (49,1-6), resistência (50,4-9) e martírio (52,13-53,12),
apresentando, assim, a caminhada e missão do Servo no meio do povo sofrido.
Nesse
contexto de sofrimento o profeta precisava possuir algumas características, dentre
elas a vocação. O profeta era alguém escolhido, chamado, um vocacionado de
Deus. A ação do profeta na Bíblia sempre foi marcada pela iniciativa de Deus. Nenhum
profeta verdadeiro se autoproclamava. Ele ouvia o chamado de Deus e respondia
livremente, deixando-se guiar. Muitas vezes esse chamado causou uma certa
insegurança e resistência, como aconteceu com Jeremias, que teve medo de responder
ao chamado de Deus, mas depois que fez a experiência de Deus não teve coragem
de ficar calado e respondeu ao chamado colocando-se inteiramente à disposição
desse Deus.
Tendo
em vista que o profeta é um vocacionado e chamado por Deus para realizar determinada
missão, podemos afirmar que o Servo é um profeta (cf. Jr 1,5; Is 49,1-5), pois
possui as mesmas características do profeta-servo que aparece no exílio. É no
exílio da Babilônia que nasce o profeta-servo, o chamado por Deus. No princípio
o profeta não compreendeu qual era sua missão, pensava que sua missão era
apenas com os exilados. Mas como anunciar a libertação e uma nova Aliança só
para o povo de Israel se havia outros oprimidos junto com o povo de Israel?
Então ele compreendeu que sua missão ia mais além do povo de Israel, sua missão
era ser “luz das nações” (Is 49,6). De acordo com a compreensão hebraica, o
termo Servo (‘ebed) que aparece no segundo canto do Servo de YHWH representa a
nação de Israel ou alguém que tem uma missão a ser realizada junto ao povo de
Israel (Is 49,1-6). “Deve-se identificar esse servo com o Israel-Servo, mas
também deve-se fazer distinção entre um e outro, pois o servo tem uma missão
junto a eles (conforme é explicitamente declarado em 49.5-6. Cf. 49,3).”
Foi
no segundo canto do Servo de YHWH, narrado pelo Dêutero-Isaías, que o profeta-servo
percebeu claramente sua missão profética, a missão de unir o povo em torno de
Deus. Sua missão era restabelecer a Aliança de Deus com o povo, como fizeram
Moisés e Josué no começo da história, um povo organizado sem opressores e
oprimidos (Is 49,5-6).
É
interessante perceber que Deus usou o profeta-servo do exílio narrado por
Isaías para revelar seu amor libertador. Deus, por meio do profeta-servo,
conduziu e libertou seu povo das mãos dos opressores. Foi no meio do povo
sofrido que o profeta fez a experiência de um Deus presente nos acontecimentos
diários desse povo e a ele se rendeu (Is 52,6; 58,9; 65,1). Foi no meio popular
que o profetismo encontrou a fonte da sua riqueza e muitas vezes de sua
decadência, pois muita gente aproveitou das oportunidades e, sem ter nenhum oráculo
de Javé, gritava “Oráculo de Javé!” (Jr 28, 4; 8).
Afirmamos
também que o servo-profeta viveu no meio do povo sofrido, experienciou Deus por
meio da dor e do sofrimento daquele povo do exílio e teve a coragem de anunciar
a esperança de libertação. “Eu, YHWH, te chamei para o serviço da justiça,
tomei-te pela mão e te modelei, eu te pus como aliança do povo, como luz das
nações, a fim de abrir os olhos dos cegos, a fim de soltar do cárcere os
presos, e da prisão os que habitam nas trevas.” (Is 42,6-7)
É a
partir das afirmações acima que defendemos a teoria do Servo narrada na
perícope de Is 49,1-6 como sendo um profeta, tendo em vista que ambos possuem
as mesmas características e que este escolhido e chamado por Deus é muito mais
que um Servo, é um profeta. Isto porque o Servo é aquele que Deus chamou e
enviou para ser luz de nações: “Mas disse: ‘É pouco que sejas para mim servo
para levantar as tribos de Jacó e os sobreviventes de Israel para fazer voltar.
E te dou para luz de nações, para ser minha salvação até a extremidade da
terra’” (Is 49,6).
59
A
experiência do profeta
A
experiência que o profeta fazia de Deus era sempre relacionada com o Deus de
seus pais, que trazia consigo a lembrança de tudo o que Deus fez no passado e oferecia
olhos para entender e atualizar o seu sentido. O profeta, nesse contexto, tornou-se
a memória do povo. Uma memória que lhe recordava as coisas que incomodavam e
que ele (o povo sofrido, oprimido, escravizado, o povo escolhido do Deus de
Israel) gostaria de nunca lembrar, como, por exemplo, o êxodo (Ex 22,20).
Faziam
memória também da presença carinhosa do Deus libertador que conduziu o povo
para uma nova terra, um Deus que fez Aliança com seu povo (Dt 32,10-11). Essas
memórias que o profeta trazia com ele eram as que ajudavam o povo a identificar
se de fato era um verdadeiro profeta ou um falso profeta. Esse profeta, por
meio da experiência de Deus, tornou-se o defensor da Aliança, era alguém que
cobrava do povo um compromisso, uma postura de fidelidade à Aliança. Ele
encarnava as exigências da Aliança ou da Santidade de Deus, exigia fidelidade e
pedia a observância prática da Lei de Deus.
A
experiência feita pelo profeta era norteada pela Santidade de Deus, pois
experienciava aquilo que o povo deveria ser e não era. Por meio dessa
experiência, o profeta percebia quando o povo agia contra a Aliança e exigia do
povo uma mudança de vida. Foi a partir dessa experiência do Deus do povo e do
Povo de Deus que nasceu no profeta a consciência de sua missão. Nesse momento
ele começou a gritar e a anunciar a profecia de Deus. Ao denunciar as
injustiças, o profeta estava anunciando o amor de Deus e o apelo à conversão.
O
povo, no convívio com o profeta que nascia no meio deles e fazia a experiência de
Deus a partir de sua realidade de sofrimento, identificava-se com esse profeta,
pois reconhecia nele o ideal que carregava dentro de si. Era o povo que, por
meio da fé, reconhecia o verdadeiro profeta. Profetas eram pessoas que viviam
uma grande experiência de Deus e não se apoderavam dessa experiência para o bem
próprio, mas faziam dela uma doação de sua vida à vontade de Deus. Os profetas,
ao anunciarem a profecia de Deus, faziam-no a partir da experiência que tinham
de Deus no convívio com o sofrimento e as injustiças vividas pelo povo.
O
profeta-servo no período do exílo (séc. VI a.C.) da Babilônia também fez a experiência
de Deus no meio do povo sofrido, pois tornou-se sofredor com os sofredores. O
profeta-servo foi chamado do meio do povo para anunciar a libertação e a
esperança que Deus reservou àquele povo escravizado em terra estrangeira. “Mas
agora disse YHWH, que me modelou do seio para servo para ele, para fazer voltar
Jacó a ele, e Israel para ele se reúna; e serei glorificado aos olhos de YHWH,
e meu Deus será meu vigor!” (Is 49,5)
Foi
através da convivência com os escravos e as escravas na Babilônia que o profeta-servo
experienciou a dor e humilhação que o Povo de Deus estava vivendo. Com essa
experiência de injustiça e dor o Povo de Deus fez a experiência do Deus pai-mãe
ao seu lado, pois viram no profeta-servo a presença do Deus libertador.
Por
meio da experiência de dor e também do carinho paterno-materno de Deus na
pessoa do profeta-servo, o povo sofrido acreditou no anúncio do profeta de
restaurar a Aliança de Deus com seu povo. Acreditou também que a unção do
Espírito Santo não era exclusividade do rei, mas pertencia ao povo e sempre
vinha acompanhada da promessa de vida: “E assim diz Deus, YHWH, que criou os
céus e os estendeu, e fez a imensidão da terra e tudo o que dela brota, que deu
o alento aos que a povoam e o sopro da vida aos que se movem sobre ela” (Is
42,5).
Nesse
sentido o profeta-servo, ao fazer a experiência do Deus libertador no meio do
povo sofrido e anunciar a libertação, despertava no Povo de Deus a experiência carinhosa
de um Deus que declara seu amor e chama seu povo pelo nome. Afirmamos, então,
que o profeta-servo da comunidade do Dêutero-Isaías era usado por Deus para
refazer a Aliança que outrora concretizou com os pobres, oprimidos e
escravizados pelo rei Nabucodonosor no exílio da Babilônia. Foi com esse povo e
com esse profeta-servo que Deus contou para dar cumprimento à sua vontade na
realização do projeto de salvação.
O
profeta, portanto, era aquele que anunciava um deus e a sua vontade. Por isso, em
virtude do encargo divino, ele exigia a obediência como dever ético. O profeta pode
também ser um homem ou uma mulher que, com seu exemplo, mostra o caminho para a
salvação religiosa. Nesse sentido, a missão do profeta estava vinculada à
gratuidade e não era exercida como uma profissão. Era simplesmente o colocar-se
a serviço de Deus para a realização de sua missão que se concretizava no
anúncio da profecia.
Os
caminhos do anúncio do profeta
O
anúncio do profeta perpassava os três caminhos, que se encontram interligados:
da justiça, da solidariedade e da mística.
Justiça
O
caminho da justiça acontecia quando tudo respondia à vontade de Deus. Nesse
caso o profeta tinha como missão manter o povo organizado conforme a Aliança
proposta por YHWH. Esse profeta não aparecia falando do nada nem era um
pregador de teorias, mas denunciava bem claramente as injustiças e ainda ousava
apresentar as causas das injustiças. É verdadeiramente fiel à mensagem de Deus.
Ao
denunciar as injustiças, criava normas que favoreciam a vida do povo e melhor observância
da Aliança. Uma das leis criadas pelos profetas foi a do Ano Jubilar ou
Sabático (Lv 25; Dt 15), que tinha como objetivo criar uma estrutura agrária justa.
A luta pela justiça sempre levava o profeta ao confronto com o rei, porque o profeta
cobrava deste a observância da Aliança, que devia ser cumprida dentro do território
confiado ao rei, como realização do projeto de Deus.
O
profeta do exílio tinha como missão anunciar a prática da justiça. A justiça para
a comunidade do Dêutero-Isaías relatada no segundo canto do Servo de YHWH, do
Servo Sofredor, envolvia a organização do povo sofrido, uma justiça que deveria
ser vivida pelos líderes do povo e expressa na realização de um projeto que
propusesse uma nova sociedade, uma sociedade na qual a justiça, os direitos e a
igualdade fossem a prioridade da missão desse profeta.
É a
partir desta concepção de missão profética, que o profeta-servo do exílio tentou
reunir o povo disperso com o sofrimento vivido no exílio. Ele levou a
comunidade a perceber que a catástrofe que os levara àquela situação não podia
ser resolvida sem que eles se organizassem na prática da justiça. Esse profeta
foi mais além, apontou os erros cometidos pelos reis que os esfolaram,
violentaram. Ele conseguiu reunir o povo sendo luz para aquela nação (Is 49,
1-6).
Solidariedade
Tendo
o profeta a missão de anunciar a justiça e apontar caminhos para que ela acontecesse,
concretizou a justiça por meio da solidariedade e da partilha com os membros da
comunidade que estavam mais próximos. Essa prática da solidariedade surgiu no
meio da comunidade que foi organizada pelo profeta com base na prática da
justiça. O surgimento dessa solidariedade nasceu com o compromisso de vida
entre irmãos e irmãs. Em tal contexto, mais uma vez Deus mostrou para o povo
sofrido que o seu compromisso foi com eles e não com os príncipes e reis dos palácios.
A
experiência que o profeta do exílio fez da vivência da ternura de Deus junto com
os oprimidos, pobres, escravizados despertou na comunidade a prática à
compreensão da solidariedade. O profeta mostrou com seu testemunho que a
comunidade era capaz de viver unida e um podia ajudar o outro com a partilha de
seus dons. E o profeta mais uma vez compreendeu na realidade dessa comunidade
qual era sua missão naquele exílio. O profeta tinha nessa época a missão de
apontar caminhos para a realização da solidariedade no meio do povo. O povo
aprendia com o testemunho do profeta o ser solidário, o partilhar o dom da
vida, as alegrias e os sofrimentos. Com o anúncio do profeta aprendia que a
comunidade do Povo de Deus deveria ser uma amostra do que Deus queria para
todos. A comunidade deveria ser a Aliança de Deus com homens e mulheres no
acolhimento do pobre, do marginalizado, na luta pela justiça. O anúncio do
profeta deveria ser permeado pela prática da solidariedade.
Mística
A
ação do profeta não se limitava apenas a denunciar as injustiças e os erros nem
só estimulava o povo para a solidariedade, mas também, e sobretudo, anunciava o
cerne da fé: O Deus que estava no meio do povo! O Deus que ouvia o grito do povo
e que o escutava! Desse modo o profeta contribuiu para que aparecesse no meio
do povo uma nova consciência, que já não dependia dos dominadores, mas que
nascia diretamente da fonte da vida: do amor de Deus. O profeta do exílio foi
aquele que rezava com a comunidade, uma oração encarnada que buscava a
libertação e o sentido de ser comunidade, de partilhar e de festejar. Esse era,
de fato, o verdadeiro profeta, um chamado por Deus do meio do povo para
experienciar seu amor através do sofrimento do povo. Para anunciar a justiça e
a solidariedade, o profeta foi perseguido, maltratado, humilhado e até
torturado por seus inimigos. Esse profeta-servo suportou todas as perseguições,
humilhações, encontrando forças no Deus libertador e ao mesmo tempo anunciando
a construção do reino de liberdade, de fraternidade, igualdade, paz e comunhão.
Nesse contexto a justiça e a solidariedade eram resultados de uma prática
mística de fé encarnada, que precisava estar intimamente ligada com a missão do
profeta.
62
Considerações
finais
Em
suma, o profetismo,desde sua origem,esteve permeado por evoluções, as quais
marcaram sua história e a história do Povo de Deus, uma vez que foi no meio do
povo sofrido que nasceu o profeta, aquele vocacionado de Deus para anunciar-lhe
a mensagem, alguém que fez a experiência desse mesmo Deus a partir da realidade
de sofrimento, injustiça e opressão vivida pelo povo de Israel. Concluímos que
o profeta-servo e sua missão profética no exílio da Babilônia tinha como missão
o anúncio da esperança, da libertação, e a prática da justiça, da
solidariedade, imbuindo de uma espiritualidade encarnada. Esse profeta-servo do
exílio falava do passado com os pés no presente almejando alcançar voos para um
futuro próximo.
Fonte:
segunda-feira, 24 de agosto de 2015
O dogma da Assunção de Maria
O dogma da Assunção se refere a que a Mãe de Deus, ao cabo de sua vida terrena foi elevada em corpo e alma à glória celestial.
Este dogma foi proclamado pelo Papa Pio XII, no dia 1 de novembro de 1950, na Constituição Munificentissimus Deus:
"Depois de elevar a Deus muitas e reiteradas preces e de invocar a luz do Espírito da Verdade, para glória de Deus onipotente, que outorgou à Virgem Maria sua peculiar benevolência; para honra do seu Filho, Rei imortal dos séculos e vencedor do pecado e da morte; para aumentar a glória da mesma augusta Mãe e para gozo e alegria de toda a Igreja, com a autoridade de nosso Senhor Jesus Cristo, dos bem-aventurados apóstolos Pedro e Paulo e com a nossa, pronunciamos, declaramos e definimos ser dogma divinamente revelado que a Imaculada Mãe de Deus e sempre Virgem Maria, terminado o curso da sua vida terrena, foi assunta em corpo e alma à glória do céu".
Por que é importante que os católicos recordem e se aprofundem no Dogma da Assunção da Santíssima Virgem Maria ao Céu?
O Novo Catecismo da Igreja Católica responde à esta interrogação:
"A Assunção da Santíssima Virgem constitui uma participação singular na Ressurreição do seu Filho e uma antecipação da Ressurreição dos demais cristãos"(966).
A importância da Assunção para nós, homens e mulheres do começo do Terceiro Milênio da Era Cristã, radica na relação que existe entre a Ressurreição de Cristo e nossa. A presença de Maria, mulher da nossa raça, ser humano como nós, quem se encontra em corpo e alma já glorificada no Céu, é isso: uma antecipação da nossa própria ressurreição.
Mais ainda, a Assunção de Maria em corpo e alma ao céu é um dogma da nossa fé católica, expressamente definido pelo Papa Pio XII pronunciando-se "ex-cathedra". E... Quê é um Dogma?
Posto nos termos mais simples, Dogma é uma verdade de Fé, revelada por Deus (na Sagrada Escritura ou contida na Tradição), e que também é proposta pela Igreja como realmente revelada por Deus. Neste caso se diz que o Papa fala "ex-cathedra", quer dizer, que fala e determina algo em virtude da autoridade suprema que tem como Vigário de Cristo e Cabeça Visível da Igreja, Mestre Supremo da Fé, com intenção de propor um assunto como crença obrigatória dos fiéis católicos.
O Novo Catecismo da Igreja Católica (966) nos explica assim, citando a Lumen Gneitium 59, que à sua vez cita a Bula da Proclamção do dogma:
"Finalmente a Virgem Imaculada, preservada livre de toda macha de pecado original, terminado o curso da sua vida terrena foi levada à glória do Céu e elevada ao trono do Senhor como Rainha do Universo, para ser conformada mais plenamente a Seu Filho, Senhor dos senhores e vencedor do pecado e da morte".
E o Papa João Paulo II, em uma das suas catequeses sobre a Assunção, explica isto mesmo nos seguintes termos:
"O dogma da Assunção, afirma que o corpo de Maria foi glorificado depois de sua morte. Com efeito, enquanto para os demais homens a ressurreição dos corpos ocorrerá no fim do mundo, para Maria a glorificação do seu corpo se antecipou por singular previlégio" (JPII, 2- Julho-97).
"Contemplando o mistério da Assunção da Virgem, é possível compreender o plano da Providência Divina com respeito a humanidade: depois de Cristo, Verbo Encarnado, Maria é a primeiria criatura humana que realizou o ideal escatológico, antecipando a plenitude da felicidade prometida aos eleitos mediante a ressurreição dos corpos" (JPII, Audiência Geral do 9-julho-97). Continua o Papa: "Maria Santíssima nos mostra o destino final dos que 'escutam a Palavra de Deus e a cumprem'(Lc. 11,28). Nos estimula a elevar nosso olhar às alturas onde se encontra Cristo, sentado à direita do Pai, e onde também está a humilde escrava de Nazaré, já na glória celestial"(JPII, 15-agosto-97).
Os homens e mulheres de hoje vivemos pendentes do enigma da morte. Ainda que o enfoquemos de diversas formas, segundo a cultura e crenças que tenhamos, por mais que o evadimos em nosso pensamento por mais que tratemos de prolongar por todos os meios ao nosso alcance nossos dias na terra, todos temos uma necessidade grande desta esperança certa de imortalidade contida na promessa de Cristo sobre nossa futura ressurreição.
Muito bem faria a muitos cristãos ouvir e ler mais sobre este mistério da Assunção de Maria, o qual nos diz respeito tão diretamente. Por quê se chegou a difundir-se a crença no mito pagão da re-encarnação entre nós? Se pensamos bem, estas idéias estranhas à nossa fé cristão vieram metendo-se na medida em que deixamos de pensar, de predicar e de recordar aos mistérios, que como o da Assunção, têm a ver com a outra vida, com a escatologia, com as realidades últimas do ser humano.
O mistério da Assunção da Santíssima Virgem Maria ao Céu nos convida a fazer uma pausa na agitada vida que levamos para refletir sobre o sentido da nossa vida aqui na terra, sobre o nosso fim último: a Vida Eterna, junto com a Santíssima Trindade, a Santíssima Virgem Maria e os Anjos e Santos do Céu. O fato de saber que Maria já está no Céu gloriosa em corpo e alma, como nos foi prometido aos que façamos a Vontade de Deus, nos renova a esperança em nossa futura imortalidade e felicidade perfeita para sempre.
Fonte:
quinta-feira, 20 de agosto de 2015
O uso do Projetor Multimídia na Liturgia
Elementos para reflexão
1. O uso do projetor multimídia na liturgia é hoje uma realidade frequente em nossas comunidades. Por se tratar de uma realidade relativamente recente e ainda pouco refletida em nosso meio, causando discussões e até mesmo divergências de opinião, a Comissão Episcopal Pastoral para a Liturgia da CNBB quer oferecer, com a presente nota, alguns elementos para uma reflexão e futuros aprofundamentos da parte do episcopado nacional, dos liturgistas, dos párocos e todos os agentes de pastoral litúrgica em nosso país e, sobretudo, daqueles que utilizam o projetor multimídia como recurso para a liturgia.
2. A partir do Concílio Vaticano II e da reforma litúrgica dele derivada, como compreender esta realidade? Seria esta uma simples adaptação à cultura moderna? Apenas uma moda, como foi com o retroprojetor, que depois caiu em desuso? Uma criatividade litúrgica? Quais os motivos da introdução deste meio na liturgia? Seria o projetor multimídia algo a ser realmente necessário na liturgia?
Vendo a realidade do uso do projetor multimídia na liturgia
3. Em diferentes comunidades, o projetor multimídia vem sendo utilizado como recurso audiovisual para, por exemplo:
• projetar cantos num telão ou numa parede da igreja, inclusive fazendo correção de textos durante a ação ritual;
• projetar as orações presidenciais, inclusive a oração eucarística, enquanto o presidente as proclama;
• projetar as leituras bíblicas enquanto são proclamadas;
• projetar a homilia ou parte dela, de forma esquemática, enquanto é proferida, chegando até mesmo a ser acompanhada por trilha sonora;
• projetar, durante a homilia e a oração eucarística, imagens ou vídeo de Jesus retratando ações correspondentes a estes momentos rituais como, por exemplo, cenas da última ceia projetadas durante a narrativa da instituição, no momento em que Jesus parte o pão;
• projetar ícones em diferentes momentos da celebração, bem como mensagens após a comunhão;
• e também projetar os textos da liturgia das horas.
• projetar as orações presidenciais, inclusive a oração eucarística, enquanto o presidente as proclama;
• projetar as leituras bíblicas enquanto são proclamadas;
• projetar a homilia ou parte dela, de forma esquemática, enquanto é proferida, chegando até mesmo a ser acompanhada por trilha sonora;
• projetar, durante a homilia e a oração eucarística, imagens ou vídeo de Jesus retratando ações correspondentes a estes momentos rituais como, por exemplo, cenas da última ceia projetadas durante a narrativa da instituição, no momento em que Jesus parte o pão;
• projetar ícones em diferentes momentos da celebração, bem como mensagens após a comunhão;
• e também projetar os textos da liturgia das horas.
Estes exemplos - como outros que poderiam ser citados -, nos servirão de referência para refletirmos sobre a complexa realidade do uso do projetor multimídia na liturgia.
Justificativas comumente dadas para o uso
4. São várias as justificativas apresentadas por aqueles que se utilizam deste meio. Dentre elas, elencamos algumas:
• Por questões econômicas e ecológicas (menos custos e gastos de papel), a utilização do projetor multimídia leva a eliminar o uso dos “folhetos litúrgicos” e livros de cantos.
• É mais prático, tendo os textos em um só lugar e projetá-los, do que multiplicar e distribuir papéis, como aqueles usados para os cantos.
• O uso do projetor multimídia ajuda e facilita a participação da assembleia na liturgia, porque ela (a assembleia) se vê livre e despreocupada de manter folhas e objetos nas mãos.
• É mais prático, tendo os textos em um só lugar e projetá-los, do que multiplicar e distribuir papéis, como aqueles usados para os cantos.
• O uso do projetor multimídia ajuda e facilita a participação da assembleia na liturgia, porque ela (a assembleia) se vê livre e despreocupada de manter folhas e objetos nas mãos.
Elementos para reflexão sobre essa realidade
5. É compreensível a iniciativa do uso do projetor multimídia com as suas justificativas, pois revelam zelo e preocupação pastoral em relação à liturgia. No entanto, do ponto de vista teológico-litúrgico, tudo isso demanda revisão, reflexão e aprofundamento, tendo em vista, sempre, a participação plena da assembleia.
6. Na reflexão sobre esta realidade, um primeiro elemento a ser considerado é a noção de participação ativa na liturgia. O que é mesmo participar de uma ação litúrgica? É participar da salvação (cf. Sacrosanctum Concilium, SC, 2) que sempre de novo nos é dada através dos ritos e sinais sensíveis da liturgia da Igreja (cf. SC 5-7), pelos quais somos incorporados à morte e ressurreição de Cristo em seu mistério pascal (cf. SC 5-7).
7. Os ritos têm o seu espaço próprio, cujo centro são as duas mesas: a da Palavra e da Eucaristia. A mesa da Eucaristia deve ocupar “um lugar que seja de fato o centro para onde espontaneamente se volte a atenção de toda a assembleia dos fiéis” (Instrução Geral ao Missal Romano, IGMR, n. 299). Isso significa que nada deve nos distrair deste centro. Caso contrário, a participação ativa ficará comprometida.
8. A ação salvadora de Deus se dá, sobretudo, quando, em torno à mesa eucarística, é proclamada a grande ação de graças da Igreja ao Pai, por Cristo e no Espírito Santo. De fato, a oração eucarística é o “centro e ápice de toda a celebração” (IGMR n. 78), quando a mente e o coração de todos devem se voltar para o alto, isto é, para Deus. Portanto, no momento da sua proclamação, é importante que o foco das atenções esteja no altar para acompanharmos e participarmos deste momento ritual. Por isso, não convém que a assembleia acompanhe o texto da oração eucarística, seja ele impresso ou projetado, mas, com os olhos voltados para o altar, ouça a voz do presidente que proclama a solene ação de graças. Neste momento, não pode a assembleia centrar-se em imagens ou filmes projetados no telão. As aclamações da assembléia poderiam ser proferidas ou cantadas pelo diácono ou outro ministro e repetidas pelo povo.
9. O que foi dito sobre mesa eucarística, pode-se também dizer sobre a mesa da Palavra, como nos ensina a Igreja: “A dignidade da Palavra de Deus requer na Igreja um lugar condigno de onde possa ser anunciada e para onde se volte espontaneamente a atenção dos fiéis no momento da liturgia da Palavra” (IGMR n. 309). Consequentemente, a Palavra de Deus, quando proclamada e comentada pela homilia, exige de nós a atitude discipular de escuta. Na liturgia, ela está para ser proclamada e ouvida. Assim sendo, estaria muito mais de acordo com a natureza da liturgia a assembleia voltar-se para o ambão, com olhos e ouvidos atentos ao ministro que proclama a Palavra “em voz alta e distinta” (cf. IGMR 38), em vez de acompanhá-la com os olhos fixos num texto impresso ou em projeções no telão.
10. A participação ativa na liturgia exige uma interação entre quem proclama a Palavra e a assembleia que a escuta, entre a presidência e assembleia, entre esses e o próprio Deus, entre Deus e o seu povo, por força das ações rituais. Ao mesmo tempo, exige o uso cuidadoso dos livros litúrgicos, porque eles “lembram aos fiéis a presença de Deus que fala a seu povo... e são sinais e símbolos das realidades do alto na ação litúrgica” (Introdução ao Lecionário da Missa, ILM, 35), não devendo por isso ser “substituídos por outros subsídios de ordem pastoral” (ILM 37).
11. O Concílio Vaticano II resgatou a ampla compreensão de presença real de Jesus Cristo na liturgia (no ministro, na Palavra, na assembleia orante, nos sacramentos, sobretudo nas espécies eucarísticas), proclamando que Cristo mesmo age nas ações litúrgicas (cf. SC 7). A Igreja nos convoca, pois, a valorizar estas diversas presenças. Imagens projetadas durante a celebração desviam a nossa atenção da ação de Jesus Cristo, aqui e agora, na própria ação ritual. Além disso, sendo o filme, ou vídeo, um acontecimento em si mesmo, não se destina a ilustrar outro acontecimento que é o mistério de Cristo e da Igreja na própria ação ritual em ato.
12. O ministro, tanto no momento de proclamar a Palavra como na ação ritual de presidir a Eucaristia, age in persona Christi. O Cristo assume a voz, o olhar, o rosto, os braços, o corpo todo do ministro para, por ele, se comunicar com o povo cristão reunido em assembleia e, na unidade do Espírito Santo, glorificar ao Pai. Então, como fica quando a assembléia se vê obrigada a ter que desviar sua atenção para o telão, exatamente quando teria de contemplar a ação do Cristo vivo na pessoa do ministro? E como fica aí a “participação ativa”, no verdadeiro sentido teológico-litúrgico, pedida com insistência pelo Vaticano II?
13. O uso do projetor multimídia na liturgia, como estamos vendo, além de interferir na ação ritual, entra em competição com a liturgia, gerando distração.
14. O uso didático do projetor multimídia, utilizando aparelhos (computador, fiação, projetor, mesa, telão), sem dúvida interfere na composição e na estética do próprio espaço celebrativo enquanto “sinal e símbolo das coisas divinas” (cf. IGMR 288). Dependendo da localização, não seria o projetor multimídia um elemento estranho ao espaço celebrativo, dificultando a execução das ações sagradas e a ativa participação dos fiéis? Na verdade, com o uso desses aparatos corre-se inclusive o risco de tornar o espaço celebrativo em quase “sala de aula”, de “conferência”, ou uma extensão da minha “sala de TV”.
15. Além do mais, com o uso de projetor multimídia na liturgia, não se corre o risco da acomodação, no sentido de não se precisar mais investir na formação litúrgica e nem mesmo buscar uma melhor qualidade do espaço celebrativo e, sobretudo, dos ministérios?
16. O problema maior, talvez, está na falta de iniciação litúrgico-ritual. Qual o lugar que a liturgia ocupa na catequese? O que normalmente se ensina aos agentes de pastoral e comunidades? Quem o faz e que metodologia utiliza? Como estão sendo formados os futuros presbíteros e diáconos? A formação litúrgica muitas vezes fica reduzida a teoria, sem a devida formação para a ritualidade conjugada com a espiritualidade. Resultado: Recorre-se a folhetos, ao uso do projetor multimídia etc., desfocando assim a atenção da assembleia daquilo que é central na celebração. Liturgia é eminentemente ação, celebração: ação de Cristo e da Igreja, ação da assembleia em Cristo e no Espírito. Assim sendo, não tem como ser ela acompanhada por outra ação paralela assistida no telão. Não somos expectadores mas participantes.
17. Enfim, podem as novas tecnologias colaborar em favor de uma liturgia participativa, pascal, simbólica e orante? É possível? Com certeza, e muito! Onde? Na catequese como preparação para o bem celebrar, nos cursos em preparação ao batismo e ao matrimônio, bem como nos cursos de formação litúrgica em geral. Aí, nestes espaços, o projetor multimídia presta, sem dúvida, um notável serviço à sagrada liturgia.
18. Que o Espírito Santo nos ilumine, para que, a partir de uma séria reflexão sobre o uso do projetor multimídia em nossas liturgias, possamos qualificar sempre mais nossas celebrações e todos os seus ministérios. Tudo para que nossas assembléias litúrgicas, corpo eclesial de Cristo, possam sentir-se plenamente sujeito das ações rituais e, ao mesmo tempo, todas as pessoas que as compõem sintam-se envolvidas pelo mistério da salvação e glorifiquem ao Pai por uma vida santa.
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