quinta-feira, 24 de outubro de 2013

Os principais títulos bíblicos de Jesus (Parte III) - O Filho do Homem



A expressão 'filho do homem’ (em aramaico: barnascha) diria por si o mesmo que ‘homem’, num modo de falar enfático, não usual na linguagem corrente. Mas seria esta a significação intencionada por Jesus, que tantas vezes se designou assim, segundo o testemunho dos Evangelhos.

Aplicado a Jesus, o título ocorre 68 vezes nos sinóticos, 12 em João, uma nos Atos, uma em Hebreus, duas no Apocalipse. Nos Evangelhos a expressão aparece sempre como autodesignação de Jesus. Este fato, e o de não constar seu uso na teologia apostólica, prova sua autenticidade jesuânica.

Em Dn 7,13-37 temos a descrição de um sonho: o profeta vê, após 4 grandes animais saindo das águas (e representando 4 reis), alguém ‘como um filho do homem’, entre as nuvens do céu, recebendo do Altíssimo a investidura régia sobre todos os povos, em vista de um reino eterno. Pouco mais adiante, quem reina porém, é ‘o povo dos santos do Altíssimo’. Quem é então o personagem? É humano? Indivíduo ou coletividade?

A expressão ‘como um filho do homem’ deveria ser interpretada, segundo alguns, como significativa de uma visão imaginária, não real. Outros adotam a interpretação coletiva: o povo de Israel seria esse ‘filho do homem’, do mesmo modo que os quatro animais são quatro outros povos. Acontece, porém, que os animais significam não só os reinos mas também os seus reis. A tradição judaica apocalíptica (Enoque e 4 Esdras) entendeu ali um indivíduo, chegando identifica-lo por vezes com o futuro Messias.

Jesus, em outras passagens, parece utilizar a expressão ‘filho do homem’ para referir-se  a seu próprio ministério terrestre e, até a sua Paixão – com o que estabelecia um elo entre os títulos de ‘Filho do Homem’ e ‘Servo’; por exemplo no texto: ‘o Filho do  homem não veio para ser servido, mas para dar sua vida em redenção da multidão’ (Mc 10,45; Mt 20,28).

Segundo Cullmann, esta fusão de duas imagens, dois títulos, é algo novo. Indicava ser ele alguém que cumpre na terra um desígnio divino, cuja revelação se dará na escatologia, explicando-se pela sua aparência humilde, sua vocação ao Sacrifício e sua misteriosa solidariedade entre os homens.

Portanto, o título de ‘Filho do homem’ não parece indicar diretamente a Jesus em sua ‘natureza humana’, mas em sua função de Rei messiânico. Parece haver certa analogia com o ‘segundo Adão’ ou ‘o homem celeste’ de 1Cor 15, 45ss e Rm 5, 12ss.


Fonte: GOMES, C. F.; Riquezas da Mensagem Cristã. Rio de Janeiro: Edições ‘LUMEN CHRISTI’, 1989, p. 303-304.
 

quarta-feira, 23 de outubro de 2013

Os principais títulos bíblicos de Jesus (Parte II) - O Servo de Deus



2 – O Servo de Deus
O ‘Servo de Deus’ faz referência a figura misteriosa do Ebed Jahvé, descrita em Is 42,53. Personagem inocente que se oferece em sacrifício de intercessão e expiação pelos pecadores. Mediador da aliança restabelecida entre Deus e seu povo, mais ainda: da salvação para todos os povos (42,6 ‘Eu, Javé, chamei você para ser a luz das nações’; 49,6 ‘não é suficiente que sejas meu servo para restaurar as tribos de Jacó... vou fazer de ti a luz das nações’; 53,11s ‘justificará muitos homens’). Admiravelmente exaltado após sua morte ignominiosa e violenta.


Quem era esse ‘Servo’? A ideia de um Messias sofredor parece não ter emergido no judaísmo pré-cristão, ao menos no sentido de que o sofrimento expiatório nunca chegou a ser integrado na doutrina messiânica.
Ora, Jesus sugeriu, em diversas alusões significativas, ser ele o Servo padecente. Ao dizer que ‘não veio para ser servido, mas para servir e dar a vida em redenção da multidão’ (Mc 10,45; Mt 20,28) evocava Is 53, como igualmente ao dizer que seu sangue era ‘derramado pela multidão’ (Mc 14,23). Em outra passagem aparece dizendo expressamente: ‘É necessário que se cumpra em mim ainda este oráculo: foi contado entre os malfeitores’ (Lc 22,37; Mc 15,28 apoiado em Is 53,12).

Assim, Jesus propunha elementos de grande importância para a interpretação de sua pessoa e obra. Ele é alguém que aceitou uma condição de humildade (Fl 2, 6. Ele tinha a condição divina, mas não se apegou a sua igualdade com Deus. 7. Pelo contrário, esvaziou-se a si mesmo, assumindo a condição de servo e tornando-se semelhante aos homens. Assim, apresentando-se como simples homem, 8. humilhou-se a si mesmo, tornando-se obediente até a morte, e morte de cruz!), surgindo entre os homens como ‘quem não possui aparência’ (Is 53,2s). Sua obra não é apenas a da pregação que anuncia o próximo perdão divino, é a outorga desse perdão mediante uma imolação sacrifical (‘ofereceu sua vida em expiação’, ‘tomou sobre si os pecados de muitos homens’: Is 53).

Identificando-se com o Servo, Jesus deu realce ao sentido de sua paixão e morte. Não seria somente um martírio a mais na linhagem dos profetas incompreendidos, seriam a oblação voluntariamente aceita, o momento culminante de sua trajetória, sua ‘Hora’. A comunidade primitiva teria refletido sobre essa identificação (Mt 12,17-24; 1Pd 2,21-25; Fl 2,5-11; At 3,13; 4, 29s; 8, 28-36).


Fonte: GOMES, C. F.; Riquezas da Mensagem Cristã. Rio de Janeiro: Edições ‘LUMEN CHRISTI’, 1989, p. 301-302.

Os principais títulos bíblicos de Jesus (Parte I) - O Cristo

Percorrê-los seria outro modo de estudar a Cristologia do Novo Testamento, porque – dada a importância que os antigos atribuíam aos nomes (nome seria expressão de qualidade própria de quem o leva – Orígenes De Orat, 24: P.G. 11,492) – aí encontramos alguns condensados da primitiva reflexão sobre Jesus. Foram apreciados sob este ponto de vista, desde a época patrística havendo explicações desses nomes desde o século V. Autores recentes por vezes centralizam neste estudo a Cristologia bíblica, predominando a questão crítica: quais os títulos que remontam ao uso do próprio Jesus?

Cullmann propõe uma classificação temática interessante: 1 – os títulos que caracterizam sobretudo a obra terrestre e passada de Jesus (profeta, Servo de Jahvé, Sumo Sacerdote), 2 – os que caracterizam a sua ação presente na Igreja (Senhor, Salvador), 3 – os que se referem à consumação escatológica (Messias, Filho do Homem) e 4 – os que aludem à pré-existência (Logos, Filho de Deus, Deus).

Limitaremos em acentuar brevemente os principais dados sobre os títulos mais característicos:
1 – O Cristo
Tomamos aqui, a palavra no sentido original, que traduz em grego o hebraico Messias (Maschiah), significando literalmente ‘o Ungido’. Em concreto, o apelativo dizia respeito ao Rei de Israel, anunciado pelos profetas. Muitos contemporâneos de Jesus se interrogaram se não era ele o Messias:
Mc 15, 31. Do mesmo modo, os chefes dos sacerdotes, junto com os doutores da Lei, zombavam dele dizendo: "a outros ele salvou... A si mesmo não pode salvar! 32. O Messias, o rei de Israel... Desça agora da cruz, para que vejamos e acreditemos!" Os que foram crucificados com Jesus também o insultavam.
Jo 7, 25. Algumas pessoas de Jerusalém comentavam: "Não é este que estão procurando para matar? 26. Ele está aí falando em público, e ninguém diz nada! Será que até as autoridades reconheceram que ele é o Messias? 27. Entretanto, nós sabemos de onde vem esse Jesus, mas, quando chegar o Messias, ninguém saberá de onde ele vem."
Jo 10, 24. Então as autoridades dos judeus o rodearam e disseram: "Até quando nos irás deixar em dúvida? Se tu és o Messias, dize-nos abertamente." 25. Jesus respondeu: "Eu já disse, mas vocês não acreditam em mim. As obras que eu faço em nome do meu Pai, dão testemunho de mim;
E outros o afirmaram decididamente: Mc 8, 28. Eles responderam: "Alguns dizem que tu és João Batista; outros, que és Elias; outros, ainda, que és um dos profetas." 29. Então Jesus perguntou-lhes: "E vocês, quem dizem que eu sou?" Pedro respondeu: "Tu és o Messias."

Mas Jesus se terá recebido como tal? Tem-se aqui o núcleo do ‘segredo messiânico’. Jesus se sabia ser o Messias, mas numa realização superior à de uma missão terrestre e política, ele poderia ter se confessado como tal ou aceitar que o dissessem. Durante seu processo de condenação, foi associado o título de ‘Filho do Homem’ glorificado no céu insinuando o sentido transcendente de sua realeza. Após a ressurreição foi manifestada a realeza de Jesus, tornando sua profissão messiânica uma profissão de fé, na comunidade cristã. O título ‘Cristo’ queria significar, assim, ser Jesus o transcendente Rei, aquele que devia vir e que se manifesta um dia em seu poder e glória.

Fonte: GOMES, C. F.; Riquezas da Mensagem Cristã. Rio de Janeiro: Edições ‘LUMEN CHRISTI’, 1989, p. 301-302.

terça-feira, 22 de outubro de 2013

Seminário Jesus (Seminar Jesus - 1985)





O Seminário Jesus foi fundado em março de 1985, em Berkeley, California, por Robert Funk, professor da Universidade de Montana.O Seminário Jesus apresenta-se como um esforço no sentido de encontrar o Jesus ‘real’ que estaria oculto por trás da teologia dos evangelistas e dos dogmas da Igreja. O idealizador do Seminário, Robert Funk, acusa a Igreja de manter seus fiéis na ignorância.

Segundo Funk o objetivo do Seminário Jesus é ‘liberar Jesus’. O único Jesus que a maioria das pessoas quer é o mítico. Elas não querem o Jesus real. Elas querem um Jesus que possa ser reverenciado. Um Jesus do culto. Afirma ainda que a alta hierarquia religiosa não permitiu que informações obtidas em pesquisas de alto padrão fossem transmitidas, por meio dos padres e pastores, a todo um universo laico desejoso de conhecê-las. É altamente discutível, porém, que o objetivo do Seminário tenha sido produzir ‘pesquisas de alto padrão’.

John Dominic Crossan, co-responsável pelo Seminário Jesus, é um dos seus membros mais expressivos. Crossan foi descrito como um dos mais brilhantes, sedutores, eruditos e sagazes estudiosos do Novo Testamento da atualidade, muito embora considere que seu livro ‘O Jesus Histórico’ esteja errado em quase tudo, assim afirma outro representante do Seminário Jesus Tom Wright.

Segundo Wright, as fontes usadas por Crossan para a reconstrução do Jesus histórico são problemáticas. Em grande parte, ela se baseia em obras não-canônicas, tais como o Evangelho Gnóstico de Marcos, obras apócrifas cuja datação segundo ele, seria anterior ao ano 60, e que ele considera de igual ou maior importância que os Evangelhos canônicos.
Crossan rejeita, assim como alguns membros do Seminário o Evangelho de Marcos sendo este um mero produto de interesses teológicos. Ao reconstruir o mundo em que Jesus viveu, ele se apoia principalmente na antropologia social. Ao invés de tentar entender Jesus contra o pano de fundo de sua própria tradição religiosa, da história e das Escrituras judaicas, Crossan define Jesus inserindo-o numa matriz sociocultural de caráter ‘secular’, caracterizada pela classe e por outras distinções sociais, bem como pela dinâmica política da colonização e da ocupação.

Para Crossan, Jesus não é um operador de milagres no sentido tradicional, mas um filósofo cínico judeu e um mago. Ele rejeita a ideia de que Jesus se dirigisse a Deus chamando-o de Abba, tivesse um seleto grupo de doze em meio a seus apóstolos, ou falasse sobre o advento futuro do reino. Sua prática da ‘comensalidade livre’, dividindo refeições com todas as pessoas, sem observar leis judaicas a respeito da pureza, convenções sociais ou estrutura familiar tradicional, evidencia que ele defendeu um igualitarismo radical que desafiava as estruturas estabelecidas e o poder hierárquico. Embora Wright aplauda Crossan por seu uso inovador das ciências sociais, ele pondera se sua análise e seleção de materiais teriam sido ideologicamente orientadas.

Crossan afirma que ‘ a comunidade cristã primitiva nada sabia a respeito da paixão de Jesus para além do fato em mesmo’ Afirma que Jesus foi executado pelos romanos, e não pelos líderes judeus, e que seu corpo foi provavelmente consumido pelos cachorros que iam procurar comida ao pé da cruz. A primeira narrativa da paixão que teria servido de fonte para Marcos, ele atribui a um hipotético ‘Evangelho da Cruz’, versão primitiva do Evangelho apócrifo de Pedro. Crossan vê esse Evangelho da Cruz como uma historicização de profecias mais arcaicas a respeito da paixão e da parousia. Em seu modo de ver, a narrativa da paixão não deve ser entendida como história recordada. Ela foi criada por escritores cristãos primitivos com base em modelos do Antigo Testamento. De modo semelhante, ele vê as narrativas sobre a ressurreição como instrumentos de legitimação da autoridade dos primeiros líderes da Igreja.

Das considerações apresentadas sobre o Seminário Jesus, podemos perceber que o estudo sobre o Jesus Histórico é crucial para a cristologia solidamente fundamentada. Sem ele, a fé cristã e sua cristologia permanecem vulneráveis às acusações de divinizar Jesus e falsificar sua mensagem que vêm sendo ouvidas na busca pelo Jesus Histórico desde os tempos de Reimarus até os dias de hoje com o Seminário Jesus.



Princípios básicos do Seminário Jesus:

Jesus de Nazaré nasceu no reinado de Herodes o Grande; sua mãe se chamava Maria e ele teve um pai humano, cujo nome pode não ter sido José;

Jesus nasceu em Nazaré, não em Belém;

Jesus foi um sábio itinerante cuja atuação foi no meio dos marginalizados;

Jesus praticou curas sem fazer uso da medicina ou magia tradicionais, aliviando sofrimentos por nós hoje definidos como psicossomáticos;

Ele não andou em cima das águas, não alimentou a multidão com pães e peixes, não transformou a água em vinho, nem ressuscitou Lázaro da morte;

Jesus foi preso em Jerusalém e crucificado pelos romanos; ele foi executado como um perturbador da ordem pública e não pela pretensão de ser o Filho de Deus;

O túmulo vazio é uma ficção: Jesus não ressurgiu corporalmente da morte;

A crença na ressureição se baseia na experiência visionária de Paulo, Pedro e Maria.
 

Fonte: RAUSCH,  T.; Quem é Jesus? Aparecida: Editora Santuário, 2006, p. 35-44.