A vida espiritual descrita no Antigo Testamento está composta de
elementos-chave e fundantes que formam um grande mosaico, um retrato detalhado
tanto da revelação de Deus quanto da resposta de fé de um povo. Sem dúvida,
dentro desse quadro há espaço para narrar às experiências amargas de derrota,
de idolatria, de expectativas frustradas.
O Antigo Testamento é, pois, a história de uma relação com dois
protagonistas: Deus e o povo. Nessa convivência estão presentes os ingredientes
comuns de um caso de amor: alegria, pranto, tristeza, emoção, ira, compaixão,
temor, disciplina, abandono, reconciliação. Ou seja, é uma história de
encontros, desencontros e reencontros.
Por um lado, percebe-se a insistência de Iahweh em revelar-se, dar-se a
conhecer, estendendo a comunhão e acolhendo, ao mesmo tempo em que estipula
condições e estabelece exigências; por outro, contata-se a luta titânica de um
povo que testemunha os favores divinos, mas que, seguindo seus instintos
próprios de independência e individualismo, de aculturação e assimilação de
influências, quase sempre se encontra distante, em processo de evasão, e,
portanto, de transgressão, elegendo seus próprios referenciais. É a história de
um povo maravilhado por seu Deus, mas ao mesmo tempo tentado a retê-lo só para
si, em tentativa insana de possuir e monopolizar, de maneira exclusiva o Sagrado.
Além disso, a própria ‘domesticação’ de Deus se torna, para a nação, uma atitude
paradoxal e contraditória, uma vez que a relação de Israel com Iahweh foi ‘ambígua’,
convivendo quase sempre com a apostasia. Dessa forma, dois conceitos fundamentais
brotam e destacam-se na história do povo de Deus no Antigo Testamento: ‘pecado’
e ‘lei’.
A moral judaica-cristã clássica diz que pecar é cometer uma falta a
alguém. No Antigo Testamento, falta-se contra Iahweh quando se transgride sua
lei. Nesse sentido, pecar é rejeitar Iahweh como o Senhor da aliança, e o
clímax dessa rejeição é exatamente a idolatria. Assim, o pecado é um ato de
ofensa e de rejeição a Iahweh, e tem o caráter de uma ruptura da aliança e do
sentido forte da prática do adultério em relação a ele. Ademais, a partir dessa
matriz conceitual, o próprio decálogo expande a significação de pecado,
enriquecendo-a com o sentido de ‘pecado social’. Ou seja, o pecado também
alcança o próximo. Por isso mesmo, o profetismo travará uma luta milenar contra
não só o culto idolátrico mas também a injustiça infligida contra os desvalidos
e necessitados.
No entanto, há perigo de simplismo teológico quando definimos dogmaticamente
o pecado como uma transgressão voluntária da lei de Deus e nada mais. Faz-se
necessário desvincular o pecado daquela imagem de Deus análoga a um legislador
civil ou eclesiástico e da lei de Deus análoga a uma lei política, entendida
como uma imposição extrínseca e contingencial. A lei de Deus identifica-se com
os imperativos que nos formulam sua criação e sua obra salvífica. Muito embora o
conjunto de leis de Israel pareça por demais severas, na realidade são uma
graça, pois visam fazer de Israel o povo sábio por excelência (cf. Dt 4,5-8) e
pô-lo em comunhão com a vontade de Deus.
Disso resulta, sobretudo, que o pecado está dirigido também contra o homem.
O pecador atenta contra o próximo e contra seu próprio ser. Por isso, o Antigo
Testamento notifica ao homem ‘religioso’ que seu pecado não é apenas
transgressão da lei ou postura idolátrica, mas, precisamente, dureza de coração
e promoção e convivência com a injustiça contra o próximo.
Fonte: CAVALCANTE, R. Espiritualidade Cristã na história. São Paulo:
Paulinas, 2007, 59-60.
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