quarta-feira, 9 de outubro de 2013

A espiritualidade do Antigo Testamento: pecado e lei



A vida espiritual descrita no Antigo Testamento está composta de elementos-chave e fundantes que formam um grande mosaico, um retrato detalhado tanto da revelação de Deus quanto da resposta de fé de um povo. Sem dúvida, dentro desse quadro há espaço para narrar às experiências amargas de derrota, de idolatria, de expectativas frustradas.

O Antigo Testamento é, pois, a história de uma relação com dois protagonistas: Deus e o povo. Nessa convivência estão presentes os ingredientes comuns de um caso de amor: alegria, pranto, tristeza, emoção, ira, compaixão, temor, disciplina, abandono, reconciliação. Ou seja, é uma história de encontros, desencontros e reencontros.

Por um lado, percebe-se a insistência de Iahweh em revelar-se, dar-se a conhecer, estendendo a comunhão e acolhendo, ao mesmo tempo em que estipula condições e estabelece exigências; por outro, contata-se a luta titânica de um povo que testemunha os favores divinos, mas que, seguindo seus instintos próprios de independência e individualismo, de aculturação e assimilação de influências, quase sempre se encontra distante, em processo de evasão, e, portanto, de transgressão, elegendo seus próprios referenciais. É a história de um povo maravilhado por seu Deus, mas ao mesmo tempo tentado a retê-lo só para si, em tentativa insana de possuir e monopolizar, de maneira exclusiva o Sagrado. Além disso, a própria ‘domesticação’ de Deus se torna, para a nação, uma atitude paradoxal e contraditória, uma vez que a relação de Israel com Iahweh foi ‘ambígua’, convivendo quase sempre com a apostasia. Dessa forma, dois conceitos fundamentais brotam e destacam-se na história do povo de Deus no Antigo Testamento: ‘pecado’ e ‘lei’.

A moral judaica-cristã clássica diz que pecar é cometer uma falta a alguém. No Antigo Testamento, falta-se contra Iahweh quando se transgride sua lei. Nesse sentido, pecar é rejeitar Iahweh como o Senhor da aliança, e o clímax dessa rejeição é exatamente a idolatria. Assim, o pecado é um ato de ofensa e de rejeição a Iahweh, e tem o caráter de uma ruptura da aliança e do sentido forte da prática do adultério em relação a ele. Ademais, a partir dessa matriz conceitual, o próprio decálogo expande a significação de pecado, enriquecendo-a com o sentido de ‘pecado social’. Ou seja, o pecado também alcança o próximo. Por isso mesmo, o profetismo travará uma luta milenar contra não só o culto idolátrico mas também a injustiça infligida contra os desvalidos e necessitados.

No entanto, há perigo de simplismo teológico quando definimos dogmaticamente o pecado como uma transgressão voluntária da lei de Deus e nada mais. Faz-se necessário desvincular o pecado daquela imagem de Deus análoga a um legislador civil ou eclesiástico e da lei de Deus análoga a uma lei política, entendida como uma imposição extrínseca e contingencial. A lei de Deus identifica-se com os imperativos que nos formulam sua criação e sua obra salvífica. Muito embora o conjunto de leis de Israel pareça por demais severas, na realidade são uma graça, pois visam fazer de Israel o povo sábio por excelência (cf. Dt 4,5-8) e pô-lo em comunhão com a vontade de Deus.

Disso resulta, sobretudo, que o pecado está dirigido também contra o homem. O pecador atenta contra o próximo e contra seu próprio ser. Por isso, o Antigo Testamento notifica ao homem ‘religioso’ que seu pecado não é apenas transgressão da lei ou postura idolátrica, mas, precisamente, dureza de coração e promoção e convivência com a injustiça contra o próximo.


Fonte: CAVALCANTE, R. Espiritualidade Cristã na história. São Paulo: Paulinas, 2007, 59-60.

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