Para
responder, dois caminhos possíveis se apresentam. Poderíamos deixar dominar a
teologia da salvação, mas apressar-nos em admitir que deve haver essencialmente
um lado revelador da salvação. O mistério de Deus manifesta-se definitivamente
em Cristo nosso Salvador, e encontramos ai uma resposta vivaz para nossas
questões e confusões acerca do sofrimento, pecado, morte, e o mais. Ou então,
poderíamos dar à revelação o papel principal, ao mesmo tempo insistindo que a auto-revelação
de Deus é muito mais do que uma mera comunicação ou informação. A salvação e a
graça formam o outro lado da moeda. A palavra de Deus sempre traz consigo a
cura e a graça salvífica. Quando chama os seus ouvintes à fé, capacita-os
poderosamente a responderem desse mesmo modo. Se é uma palavra, é a ‘palavra de
vida’ (1Jo 1,1). É a verdade que transforma.
Duas
versões possíveis da auto-revelação divina em Ex 3,14 indicam como a revelação
e a salvação podem estar muito perto uma da outra. Podemos parafrasear a
passagem assim: ‘Eu me revelo como aquele que se revela’ ou ‘Eu sou (ativo como
) aquele que trabalha’. A primeira salienta a revelação, a segunda sugere a
salvação.
O
Concílio Vaticano II não escolheu entre ‘revelação’ e ‘salvação’, mas usou
ambos os termos quase como permutáveis. Em Dei Verbum, por exemplo, os artigos
2, 3, e 4 se deslocam para cá e para lá entre os dois termos. Tomemos esta
passagem do artigo 2:
‘A
economia da revelação realiza-se por obras e palavras, que são intrinsecamente
ligadas umas às outras. Como resultado, as obras realizadas por Deus na
história da salvação mostram e sustentam a doutrina e as realidades
significativas pelas palavras; as palavras, por sua vez, proclamam as obras e
iluminam o mistério que contêm. A verdade mais íntima que a revelação nos dá
sobre Deus e a salvação do homem brilha em Cristo, que é ele mesmo o mediador e
resumo de toda revelação’.
No que
respeita ao Concílio, a história da revelação é a história da salvação e
vice-versa.
Todavia,
em vez de usar os termos como praticamente sinônimos, ou preocupar-nos com a
escolha entre ‘salvação’ e ‘revelação’, podemos usar uma terminologia ‘mais
alta’, que abrange os dois, e falar de ‘autocomunicação’ divina. Isto envolve
uma atividade, tanto reveladora como salvífica, de Deus. A salvação e a
revelação constituem a história da autocomunicação divina.
Fonte: O’COLLINS,
G.; Teologia Fundamental. São Paulo: Loyola, 1991, p. 78-79.
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